Em um setor altamente dependente de ciclos de investimento público e concessões rodoviárias, manter a liderança por seis anos consecutivos não é trivial. A história da paranaense GRECA Asfaltos ajuda a explicar por quê.
A empresa, que começou transportando pedras nas ruas em expansão de Curitiba no fim dos anos 1950, transformou-se na maior fornecedora de ligante asfáltico do Brasil. Em 2025, registrou faturamento de R$ 2,85 bilhões, consolidando uma trajetória marcada por escala industrial, inovação tecnológica e aposta em sustentabilidade.
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) colocam a empresa paranaense como líder do segmento desde 2019, elevando para 21,3% sua participação na indústria de fornecimento de ligante asfáltico no país em 2025.
Traduzindo os números para a realidade de quem circula pelas rodovias brasileiras, a GRECA contabilizou o fornecimento de matéria-prima suficiente para pavimentar cerca de 10 mil quilômetros de estradas em diversas regiões do Brasil. O desempenho sustenta a estratégia de crescimento da companhia para os próximos anos.
A história da GRECA Asfaltos começa no final da década de 1950 e acompanha o crescimento de Curitiba. Filho dos fundadores e atual membro emérito do Conselho de Administração da empresa, Amadeu Greca aproveitou a urbanização da capital paranaense e o aumento da população para diversificar os negócios.
A companhia, que iniciou suas atividades com o transporte de pedras, passou pela distribuição de asfalto e, na década de 1990, já na terceira geração da família, tornou-se uma das principais indústrias fornecedoras do segmento no Brasil. Atualmente, a empresa é controlada por três filhos de Amadeu — Josiane, Juliane e Marcos Greca — e atravessa um novo ciclo de transformação, expansão e crescimento.
Os ligantes asfálticos produzidos pela empresa estão presentes nas principais rodovias do país, como o trecho Norte do Rodoanel e a Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, além das estradas concessionadas da PRVias, no Paraná. A companhia possui oito fábricas e nove centros de distribuição espalhados pelo Brasil e, nos últimos cinco anos, vendeu mais de 2,5 milhões de toneladas de ligantes asfálticos.
“Atendemos hoje tanto órgãos públicos quanto concessionárias e empresas privadas, com um portfólio que vai além do fornecimento de insumos e inclui suporte técnico e desenvolvimento de soluções para diferentes tipos de obra”, afirma o CEO da GRECA Asfaltos, Edenilson Dalbosco.
E acrescenta: “O asfalto acompanha a evolução do mercado e da sociedade. Investimentos em tecnologia e pesquisa são constantes para que o material se torne mais sustentável, durável e contribua para a redução da emissão de poluentes. Para se ter uma ideia, aportamos, no ano passado, R$ 10 milhões em pesquisa e desenvolvimento”
Reciclando pneus e estradas
O carro-chefe da empresa é o asfalto modificado com pó de borracha de pneus inservíveis, que seriam descartados. A tecnologia foi implementada pela GRECA no Brasil há mais de duas décadas, e o produto foi batizado de ECOFLEX.
A empresa contabiliza mais de 28 milhões de pneus reciclados e transformados em pavimentos desde o início da fabricação. A quantidade aproximada de pneus reciclados pelo ECOFLEX da GRECA nos últimos cinco anos corresponde ao carbono retido por uma floresta de 10 milhões de metros quadrados — o equivalente a mil campos de futebol.
Os revestimentos que utilizam ligantes modificados apresentam maior durabilidade e melhor resposta às variações climáticas, característica que tem ganhado relevância em licitações e projetos de longa vida útil, por estar alinhada às metas de sustentabilidade assumidas por governos e grandes contratantes.
Um levantamento conduzido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Pavimentação e Segurança Viária (GPPASV), da Universidade Federal de Santa Maria, indicou que esse tipo de asfalto emite menos gases causadores do efeito estufa e apresenta melhor custo-benefício para as vias brasileiras.
As tecnologias da GRECA também viabilizam a reciclagem asfáltica, em parceria com empresas de engenharia e pavimentação. O asfalto antigo, fresado — resultante do corte, desbaste ou raspagem de camadas de pavimentos deteriorados — é utilizado na recomposição de um novo pavimento, reduzindo o descarte de material, a necessidade de transporte para bota-foras, as emissões e os impactos ambientais.
Desafio do mercado
A reciclagem e o avanço contínuo no desenvolvimento de ligantes altamente modificados fazem parte de uma estratégia mais ampla da GRECA para garantir competitividade e ampliar a preferência pelo asfalto na pavimentação de rodovias no país. “O asfalto com borracha ou a reciclagem asfáltica apresentam melhor custo por ciclo de vida, manutenção mais simples e redução significativa nas emissões de CO₂ em comparação com outros materiais”, afirma Dalbosco.
A falta de planejamento de longo prazo em infraestrutura também é um desafio persistente do mercado. Os ciclos eleitorais determinam picos e quedas na realização de grandes obras e, mesmo com o avanço das concessões rodoviárias, o poder público ainda é o principal propulsor do setor: quando não há investimento, o mercado retrai.
Com apenas 12,4% de sua malha rodoviária pavimentada, segundo dados do Relatório de Avaliação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), de 2021, o Brasil ainda apresenta uma necessidade represada de ampliar conexões em diversas regiões.
Um exemplo é o gargalo da BR-101, em direção a Santa Catarina, onde, em períodos de fluxo intenso, podem ser necessárias até 12 horas para percorrer um trecho de 400 quilômetros entre as capitais paranaense e catarinense. “O Brasil ainda precisa de muitos investimentos em novas vias. O país avançou em modelos de concessão, e esse caminho é positivo. Mesmo assim, apenas as concessões podem não ser suficientes para atender à demanda total reprimida por infraestrutura”, conclui o CEO.
