Transparência em excesso faz mal? Livro investiga uma obsessão de nossa era


Hamilton dos Santos*

Em 2026, discutir transparência é inevitável porque, mais do que nunca, vivemos sob a promessa de que mais informação significa automaticamente mais verdade, mais controle e mais justiça, o que, a meu ver, não se sustenta.

O pleito generalizado por hiper transparência, potencializado pelas plataformas digitais e pela inteligência artificial, muitas vezes produz o efeito oposto: excesso de ruído, paralisia e julgamento apressado.

O ponto central é compreender que transparência não é um valor absoluto, mas um mecanismo que precisa ser calibrado. Sem esse cuidado, corremos o risco de corroer justamente aquilo que sustenta sociedades complexas: a confiança.

Por fim, como procuro demonstrar no livro, a opacidade não é um defeito do mundo natural ou da vida social. Ao contrário, é um certo grau de opacidade que nos permite prosperar, pois é dela que se alimenta a principal das virtudes humanas: a confiança.

“O “contra” no título de “Contra a Transparência” (Iluminuras) não é negação. Tenta ser um método de pensamento contraintuitivo, que se insere em uma tradição de ensaios que nos convidam a desconfiar justamente daquilo que parece mais evidente, mais consensual, mais “do bem”.

Em um tempo em que certas ideias se tornam quase automáticas (como a transparência) pensar contra é uma tentativa de exercitar a lucidez: é interromper o reflexo, reabrir a pergunta, retomar o debate.

Mais do que uma provocação gratuita, meu gesto busca restaurar algo que estamos perdendo: a capacidade de discordar com rigor, sem transformar diferença em conflito ou em cancelamento. Pensar contra, hoje, é, a meu ver e muito modestamente, até uma forma de responsabilidade intelectual.

Leia trecho de “Contra a Transparência”:

De certo modo, estaríamos hoje, talvez, diante de uma nova espécie de “Iluminismo”, na medida em que esse movimento do século XVIII foi marcado pela ampla circulação de ideias, mas, também, por disputas e conflitos acerca da relação entre essa circulação e os mecanismos de poder e organização da sociedade.

Um novo Iluminismo que responderia pelo nome de Sociedade da Transparência, marcada pela hipercirculação de informação e acúmulo de dados. Não é por outra razão que o debate público atual passou a ser tão dominado pelo tema da transparência, que, de problema ótico (voltarei às propriedades físicas da transparência mais adiante), passa a ser prescrita como um fármaco moral infalível, capaz de remediar e curar as imperfeições das sociedades complexas nas quais vivemos.

“A exigência da transparência, presente por todo lado, intensifica-se de tal modo que se torna um fetiche e um tema totalizante, remontando a uma mudança de paradigma que não se limita ao âmbito da política e da sociedade”, notou o filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han naquele seu livro citado acima.

Vale notar que, se por um lado, o livro de Han é essencial e fundador na crítica da transparência como estatuto de valor supremo e totalizante, por outro, ele, a meu ver, situa demasiadamente o debate no campo da chamada negatividade ontológica, uma espécie de metafisica segundo a qual a realidade não seria completamente transparente e muito menos estaria plenamente disponível ao conhecimento, como se a própria noção de ser já incluísse um certo ocultamento, uma distância, uma não coincidência.

Seja como for, outro filósofo, o esloveno Slavoj Žižek, também dá destaque à profundidade da fetichização a que o tema da transparência parece estar chegando. Em uma entrevista a Yanis Varoufakis, ele observa o modo como na política, hoje, ao menos para figuras como Trump (e o mesmo valeria também para certos políticos brasileiros), ser pego mentindo, ao invés de causar indignação no público, causa a sensação de sinceridade — o que, podemos dizer, reforça a identificação populista com um líder cuja força se faz ser admirada como a de um super-homem, um Übermensch para além do bem e do mal.

A transparência, nesse caso, aparece como um valor tão absoluto que mesmo o que seria o seu contrário (a mentira e a enganação, por exemplo) se vê domado pela sua luz: a evidência de que alguém é capaz de mentir e iludir para conquistar seus interesses é vista como sinceridade porque é sinal de transparência sobre o caráter dos homens de poder.

A transparência, assim, parece já ter se descolado do problema da mentira — ela é um valor que subiu a outro patamar, um patamar metafísico, associado a uma ideia de bem em si mesmo, independente dos rumos particulares que tome em cada caso.

*Jornalista e doutor em filosofia

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