Todo ano, tão certo quanto os ovos de chocolate, há o Easter Jeep Safari, um grande encontro off-road que acontece a cada semana de Páscoa desde 1967. Organizado pelo clube Red Rock 4-Wheelers, o evento leva romarias de jipeiros às trilhas pedregosas do deserto de Moab, em Utah, no oeste dos Estados Unidos. A 60ª edição começou no último sábado e vai até o próximo domingo.
O evento atrai uma multidão considerável à pequena cidade de Moab. Estima-se que, durante seus nove dias de duração, entre 15 mil e 20 mil visitantes (e 4 mil veículos 4×4) passem pela região. Esse fluxo inclui não apenas os participantes das trilhas, mas também entusiastas que visitam a feira Vendor Expo, turistas e imprensa. O impacto é gigantesco: hotéis, trilhas e o comércio local ficam tomados.
Apesar do nome “Jeep Safari”, o festival não é exclusivo da Jeep. Nas trilhas de Moab, é comum encontrar modelos da Ford, Toyota, Land Rover, Nissan e outros nomes tradicionais do fora de estrada. A participação é aberta a veículos de qualquer origem, desde que atendam a critérios específicos: devem ter tração 4×4 com reduzida e precisam ser licenciados para rodar em vias públicas.
Podem participar jipes, picapes, SUVs e os chamados rock buggies (ou rock crawlers), veículos off-road extremos com chassis tubulares e motores V8, projetados para transpor obstáculos rochosos.
Mas o fato é que o evento hoje é conhecido mundialmente por causa da Jeep. A cada edição, a marca de Toledo, Ohio, apresenta conceitos 4×4 para encher os olhos do público off-road. É ali que testa soluções de engenharia e antecipa tendências de estilo, tanto para futuros modelos de produção quanto para reforçar o catálogo de acessórios Mopar.
Para celebrar os 60 anos do Safari, a Jeep está mostrando em Moab seis desses exercícios de estilo e tecnologia. Entre restomods, trilheiros radicais e projetos voltados a expedições de longa distância, os estudos exploram diferentes possibilidades do universo todo-terreno e servem como vitrine para a companhia. Vamos a eles:

Jeep Wrangler Anvil 715
Foto de: Reprodução
Wrangler Anvil 715
“Anvil” significa “bigorna” em inglês, um nome que evoca a robustez do conceito mais marcante do novo lote da Jeep. Baseado no Wrangler Rubicon 392, esse 4×4 tem a frente e o teto profundamente modificados, lembrando uma mistura da picape militar Kaiser Jeep M715 (1967–1969) com o Land Rover Defender clássico.
A dianteira inclinada para frente, com grade estreita, altera não apenas a estética, como melhora o ângulo de ataque. Os para-choques são de puro aço. A suspensão mais alta e os pneus BFGoodrich KM3 37×12.50 R17 ampliam o vão livre e a capacidade de transposição.

Jeep Wrangler Anvil 715
Foto de: Reprodução
Mas a proposta aqui é claramente voltada para as grandes viagens. O teto — elevado em 10 cm — incorpora claraboias. O rack integrado, os limb risers (cabos que desviam galhos do para-brisa) e o compressor embarcado para inflar e desinflar os pneus evidenciam um projeto pensado para autonomia em regiões remotas.
Os bancos são mais confortáveis e têm revestimento pensado para maior durabilidade. O piso com revestimento tipo bedliner (proteção aplicada em caçambas) também é extremamente resistente e pode ser lavado com mangueira.
Com os preços da gasolina subindo em todo o planeta, o sedento motor V8 6.4 Hemi (392), de 475 cv, não é exatamente um incentivo a grandes aventuras pelo mundo… Talvez fosse melhor escolher um propulsor a diesel ou híbrido.

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Wrangler Buzzcut
A altura do teto foi “cortada” em 5 cm (daí o “cut” no nome), o para-brisa foi inclinado para trás e a parte traseira da capota foi modificada, criando uma silhueta mais esportiva e rebaixada — apesar da suspensão elevada em 5 cm e dos enormes pneus 37×12.50 R17.
Pintado no vibrante laranja Vitamin C, esse Wrangler serve como mostruário de acessórios Mopar: tem guincho Warn, snorkel, para-lamas retos e um farto conjunto de iluminação auxiliar. O banco traseiro deu lugar a um sistema modular de carga com gavetas traváveis e painéis para fixação de equipamentos, solução típica de veículos de expedição.
Há mesa embutida na tampa traseira, compressor de ar para ajuste da pressão dos pneus em trilha, protetores de soleira, capas de pedal, tampa do tanque personalizada e tapetes para uso na lama — todos itens já disponíveis na concessionária. Os bancos são do tipo concha, do Dodge Charger.
Um filtro especial garante a admissão de ar mais frio para o motor 2.0 turbo de quatro cilindros (272 cv). O câmbio é automático de oito marchas.

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Grand Wagoneer Commander
O Jeep Grand Wagoneer não deveria, em tese, estar em Moab. As trilhas com grandes pedras lisas exigem entre-eixos curtos, bons ângulos de entrada e saída e veículos leves — exatamente o oposto de um SUV para asfalto, com 5,45 m de comprimento e três fileiras de bancos. Mas, com o conceito Commander, a Jeep propõe transformar o modelo em um overlander de luxo capaz de rebocar um 4×4 puro, no cambão, até uma trilha distante, sem medo de encarar trechos fora de estrada.
Para isso, o Grand Wagoneer ganhou um kit de suspensão elevada do Rock Krawler, que aumentou o vão livre e melhorou os ângulos de ataque e saída. O conjunto de rodas de 20 polegadas com pneus Recon Grappler 35” (da japonesa Nitto, divisão off-road da Toyo) busca equilibrar tração no fora de estrada com estabilidade no asfalto.
A preparação inclui ainda proteções inferiores (skid plates) para resguardar componentes vitais em obstáculos mais severos, algo essencial diante do porte e peso do modelo. Um rack abriga sete faróis auxiliares Baja Designs, gerenciados por um sistema sPOD, com proteção contra descarga de bateria e resistência a vibração, calor e umidade. Sua instalação é plug & play, sem cortes no chicote elétrico.
A pintura e o acabamento externo escuros dão ar “malvadão” ao enorme utilitário familiar. Por dentro, contudo, o modelo mantém o padrão premium: a proposta aqui é combinar refinamento com capacidade off-road sem sacrificar nenhum dos dois mundos.

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Wrangler Laredo
A ideia é pegar um Jeep Wrangler moderno e eliminar o que não é essencial. Esse 4×4 resgata o espírito dos CJ-5 e CJ-7 na versão Laredo dos anos 1970 e 1980, que tinham visual enfeitado com muitas faixas coloridas e cromados, mas sem abrir mão da simplicidade mecânica.
Baseado no atual Wrangler Willys, o conceito traz motor V6 Pentastar 3.6 e câmbio manual de seis marchas, combinação cada vez mais rara. A preparação segue a lógica funcional: lift kit de 2 polegadas da Jeep Performance Parts e pneus BFGoodrich KM3 37×12.50 R17, um pacote que aumenta o vão livre e reforça a capacidade de transpor obstáculos sem recorrer a soluções complexas.
Na carroceria, o foco está na interação com o ambiente: meias-portas e um interessante teto rígido com parte central deslizante (ragtop de abertura manual). Os destaques visuais são a pintura com grafismos em dourado e marrom e as belas rodas cromadas com o clássico desenho “slot mag”, elementos que remetem aos antigos CJ Laredo.
O acabamento interno é de vinil lavável e tecido com padrão indígena. Não há grandes telas nem excessos de assistência ou ADAS — a ideia é ter um Jeep raiz, sem mediação eletrônica, para resgatar uma condução mais direta.

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Gladiator Red Rock
Ao contrário da maioria dos conceitos apresentados no Easter Jeep Safari — normalmente criados apenas para exibição — a picape Gladiator Red Rock foi concebida como ferramenta de trabalho. Após o evento, será doada ao clube Red Rock 4-Wheelers, responsável pela organização, e passará a atuar diretamente na manutenção das trilhas de Moab.
O projeto explora a versatilidade da caçamba para transporte de equipamentos, com bandeja deslizante e sistema de racks com compartimentos modulares. A preparação off-road prioriza capacidade real: suspensão Rock Krawler Overland X Pro com lift de 3 polegadas (7,6 cm), combinada a rodas beadlock (com parafusos que prendem o talão do pneu à roda) e os onipresentes BFGoodrich Mud-Terrain KM3 37×12.50 R17.

Foto de: Reprodução
Há para-choque de aço com guincho Warn para resgates, protetores de soleira e indestrutíveis faróis auxiliares TYRI (que, no Brasil, são mais usados em máquinas agrícolas e de mineração).
Um compressor da australiana ARB permite ajustar rapidamente a pressão dos pneus e ainda alimentar ferramentas pneumáticas. Na cabine, o foco é o uso severo: o piso Armorlite, de plástico ultrarresistente, antiderrapante, isolante térmico e à prova de riscos, é instalado diretamente sobre o assoalho metálico. Trilhos e alças adicionais de apoio facilitam a fixação de equipamentos e aumentam a firmeza dos ocupantes.

Foto de: Reprodução
Jeep XJ Pioneer
Guardamos nosso favorito para o final do texto. O XJ Pioneer é um restomod que aposta mais na preservação do que na restauração. Esse Jeep Cherokee XJ de duas portas, ano 1986, foi encontrado em Reno, Nevada, onde era mantido com extremo cuidado por décadas. A região de clima muito seco ajudou a protegê-lo da oxidação.
Seus 128 mil quilômetros rodados, com registro minucioso de todos os abastecimentos nos últimos 40 anos, definiram todo o projeto. Foram mantidos a pintura de fábrica Champagne Gold Metallic, assim como o V6 2.8 original — sim: entre 1984 e 1986, os Cherokee tiveram como opção o motor Chevrolet LR2.

Foto de: Reprodução
As modificações feitas em 2026 pela Jeep foram pontuais e funcionais: lift de 2 polegadas com molas ARB, barra estabilizadora desconectável para ampliar a articulação em trilha, além dos pneus BFGoodrich All-Terrain KO2 montados em aros de 17” (com desenho inspirado nas rodas originais).
Os para-lamas foram levemente recortados e ganharam alargadores de fibra de carbono, garantindo espaço para os pneus maiores sem comprometer as proporções. Protetores de soleira receberam acabamento integrado ao visual original. O resultado é um XJ plenamente apto para trilha, mantendo estética e identidade de época.

Foto de: Reprodução
Na cabine, a proposta é ainda mais fiel: painel, comandos e revestimentos foram mantidos praticamente intactos, sem tentativas de modernização. É uma cápsula do tempo, com encosto massageador de bolinhas de madeira, um cubo mágico e, no porta-malas, uma caixa de computador Macintosh Plus (1986–1990) transformada em cooler para bebidas. Tudo para lembrar uma época em que a simplicidade mecânica e a durabilidade eram prioridades, sem filtros eletrônicos entre o motorista e a trilha.
