conheça a marca chinesa adotada pelo grupo Stellantis



Muito se tem falado em Dongfeng nos dois últimos meses. Primeiro vieram as notícias de que os modelos da companhia (uma das “quatro grandes” entre as estatais automotivas chinesas) desembarcarão no Brasil até o fim do ano. Já há inclusive planos de montagem local, utilizando a fábrica da parceira Nissan em Resende (RJ).

Depois veio o anúncio da parceria entre Dongfeng e Stellantis para produzir os modelos eletrificados da Peugeot e da Jeep em Wuhan, na China, com vistas principalmente à exportação.

As novidades não pararam por aí: na semana passada, a Stellantis confirmou planos para criar uma nova joint venture com a Dongfeng na Europa, mirando vendas, engenharia e produção local de veículos elétricos desenvolvidos na China. Os carros da Voyah, uma divisão da Dongfeng, serão montados em Rennes, na França — em uma fábrica com muita história, que pertenceu originalmente à Citroën.



O Citroën AMI 6, primeiro modelo produzido na fábrica de Rennes-la-Janais (1961)

O Citroën AMI 6, primeiro modelo produzido na fábrica de Rennes-la-Janais (1961)

Foto de: Reprodução

Citroën construiu Rennes

Nos anos 1950, a Citroën enfrentava uma grave falta de capacidade produtiva em sua tradicional fábrica do Quai de Javel, espremida na margem esquerda do Sena, em pleno 15e arrondissement de Paris.

Para se expandir, a empresa decidiu construir uma nova fábrica, a 350 km de Paris. O local escolhido foi Rennes, na Bretanha (noroeste da França), então uma região puramente agrícola.

A fábrica de Rennes-la-Janais foi inaugurada em 1960, com a presença do presidente Charles de Gaulle. Ali foram fabricados modelos marcantes da Citroën, como o Ami 6 (1961-1969), a Dyane (1967-1983) e o GS (1970-1986).



Os Citroën XM foram feitos em Rennes-la-Janais de 1989 a 2000

Os Citroën XM foram feitos em Rennes-la-Janais de 1989 a 2000

Foto de: Reprodução

Em 1976, a Peugeot assumiu o controle da Citroën, criando o grupo PSA. A fábrica de Rennes ganhou cada vez mais importância, servindo de base para a produção dos Citroën que conhecemos na época em que o Brasil reabriu as importações: BX, XM, Xantia, Xsara e C5.

Somente em 2004, contudo, o primeiro Peugeot foi produzido nas Usines de Rennes: o sedã 407. A segunda geração do 5008 (2017-2024) também era fabricada por lá.



Citroën C5 Aircross, o único carro feito hoje em Rennes-la-Janais

Citroën C5 Aircross, o único carro feito hoje em Rennes-la-Janais

Foto de: Reprodução

Desde 2021 nas mãos do grupo Stellantis, a fábrica de Rennes hoje produz um único modelo: o Citroën C5 Aircross de segunda geração, em versões híbridas e elétricas. A produção gira atualmente em torno de 70 mil carros por ano, com mão de obra de aproximadamente 1.900 funcionários.

Um triste ocaso, quando comparamos esses números com os 400 mil carros produzidos em 2004 ou os 14 mil trabalhadores que a fábrica empregava na década de 1970.



Voyah Taishan

Foto de: Reprodução

A solução chinesa

Nas voltas que o mundo dá, a salvação da histórica fábrica de Rennes poderá estar na produção local dos modelos eletrificados premium da chinesa Voyah.

O acordo prevê a criação de uma nova joint venture europeia, controlada pela Stellantis (com 51% de participação), enquanto a Dongfeng ficará com os 49% restantes. A nova empresa será responsável por toda a engenharia, compras, distribuição e manufatura dos modelos Voyah na Europa.



Voyah Free+ (2)

Foto de: Reprodução

Para a Stellantis, a decisão de produzir carros chineses em solo francês é a espinha dorsal de seu novo plano global “FaSTLane 2030”. A estratégia liderada pelo CEO Antonio Filosa deixa de lado o isolamento industrial do passado para abraçar o compartilhamento de ativos. O plano ataca o fantasma da ociosidade na Europa, onde a utilização das fábricas do grupo patina na casa dos 60%.

Ao introduzir a Voyah em Rennes (repetindo o modelo aplicado com a Leapmotor na Espanha), a Stellantis projeta elevar a ocupação de suas linhas europeias para 80% até 2030, preservando empregos e evitando o fechamento de instalações históricas.



Voyah Free (painel)

Foto de: Reprodução

Há também uma forte jogada de blindagem geopolítica e tecnológica. Ao nacionalizar a produção da Voyah na França, a joint venture contorna os pesados impostos da União Europeia sobre carros vindos da China.

Além disso, em vez de gastar bilhões de euros no desenvolvimento tardio de arquiteturas digitais e baterias, a Stellantis atua como uma espécie de “porteira” do mercado europeu: assume o controle do negócio, absorve o know-how do ecossistema chinês e põe em suas vitrines carros elétricos de alta margem e competitividade imediata.



006 - Este Simca Vedette Régence francês inspirou as formas e dimensões do Dongfeng CA71

006 – Este Simca Vedette Régence francês inspirou as formas e dimensões do Dongfeng CA71

Relação nasceu bem antes da Stellantis

O que pouca gente se toca é que a ligação entre Dongfeng, Peugeot e Citroën vem de muito longe.

Voltemos novamente no tempo. O primeiro carro a receber o nome Dongfeng (“Vento Leste”, em mandarim) foi uma cópia não autorizada do Simca Vedette construída em 1958. Simca, vale dizer, era uma marca francesa que anos mais tarde seria incorporada pela Peugeot Citroën — vejam as coincidências da História.

O clone chinês do Simca não passou da fase de protótipo, mas a marca Dongfeng acabou ressurgindo em 1978, em um caminhão. Vieram outros veículos comerciais, dezenas de fusões, compras e acordos, até a formação do atual Dongfeng Motor Corporation.

Entre as parcerias estava a Dongfeng Peugeot-Citroën, que desde a década de 1990 produziu na China modelos como Citroën ZX, Xsara, Xsara Picasso, C3 e C4, entre outros, além dos Peugeot 206, 207, 301, 308, 2008 e 3008.

Em 2019, a Dongfeng deu início a uma divisão dedicada ao desenvolvimento de veículos eletrificados de luxo. O timing acabou ajudando: em 2020, após o encerramento de uma joint venture entre a Dongfeng e a Renault, a fabricante chinesa herdou uma moderna linha de produção em Wuhan usada anteriormente pela parceira francesa.

A estrutura foi rapidamente convertida em uma fábrica altamente digitalizada e dedicada exclusivamente à nova marca. Em julho daquele ano, o nome Voyah foi oficialmente apresentado.



Voyah Passion EVR (1)

Foto de: Reprodução

Lantu, Voyah e a ave-peixe

Vale dizer que, na China, a marca se chama Lantú — algo próximo de “plano” ou “blueprint”, uma escolha simbólica para uma empresa criada para desenhar o futuro tecnológico do grupo. Para exportação foi adotado o nome Voyah, considerado “mais internacional”.

O logotipo, contudo, é o mesmo na China e nos outros mercados. Inspirado no Kun Peng, criatura mitológica da literatura clássica chinesa, representa uma gigantesca ave-peixe abrindo suas asas.

A estratégia internacional evita a abordagem do “barato completinho”. A Dongfeng posicionou explicitamente a Voyah para conquistar clientes vindos de marcas tradicionais de luxo (Mercedes-Benz, BMW e Audi), oferecendo forte integração tecnológica — como os sistemas autônomos Qiankun ADS da Huawei e arquiteturas elétricas de 800 volts para recarga ultrarrápida — por um teto de preço inferior ao das marcas premium europeias tradicionais.



Voyah Dream (2)

Foto de: Reprodução

A marca desenvolveu a arquitetura modular ESSA+, uma plataforma preparada tanto para modelos 100% elétricos quanto para sistemas híbridos plug-in de autonomia estendida. Todos têm configurações com tração integral (dois motores elétricos) e potência combinada acima dos 440 cv.

Os projetos de estilo dos primeiros modelos foram encomendados ao estúdio italiano Italdesign, mas hoje a marca já dispõe de seu próprio time de designers recrutados na BMW, Audi e na própria Italdesign.

A ofensiva veio em ritmo acelerado. O primeiro modelo foi o Voyah Free, lançado em 2021 como um SUV disponível em versões totalmente elétricas ou com extensor de autonomia. O modelo ganhou notoriedade principalmente pelo painel formado por três telas integradas que se elevam eletricamente ao ligar o veículo. Entre as sofisticações está o teto panorâmico fotocromático.

No ano seguinte surgiu a Voyah Dream (ou Dreamer), uma minivan de luxo voltada ao transporte executivo de alto padrão, segmento extremamente valorizado no mercado chinês. Com suspensão pneumática adaptativa e cabine altamente refinada, é disparado o Voyah que mais se vê nas ruas da China, representando 50% da produção.

A gama cresceu novamente em 2023 com o Voyah Passion, sedã executivo criado para enfrentar rivais alemães premium, e depois com o Voyah Courage, SUV elétrico já desenvolvido para atender aos rigorosos padrões internacionais de segurança.

A expansão europeia começou pela Noruega em 2022 e depois avançou para Dinamarca, Finlândia, Itália, Espanha e Portugal. O próximo passo é o Reino Unido, com versões com direção à direita.

Para adaptar seus veículos às condições do continente, a marca promoveu extensivos testes no Círculo Polar Ártico, focando especialmente no gerenciamento térmico das baterias e no acerto dinâmico dos modelos em temperaturas extremas.


O que você pensa sobre isso?


A produção anual tem evoluído aos saltos: 50 mil unidades em 2023, 85 mil em 2024 e 150 mil em 2025. Nos primeiros meses de 2026, já houve crescimento de 36% em relação ao mesmo período do ano passado.

E assim a marca da ave-peixe vai abrindo suas asas sobre o mercado internacional.



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