Índia lança 1º carro flex seguindo exemplo do Brasil



Em março de 2003, os brasileiros começaram a descobrir uma novidade chamada carro flex: o Gol 1.6 Power a gasolina foi transformado no Gol Total Flex, inaugurando uma tecnologia que mudaria completamente o mercado nacional. Passados 23 anos, é a vez da Índia viver uma experiência parecida.

Marcado para a véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, a Maruti Suzuki apresenta o primeiro automóvel flex produzido em série para o mercado indiano. O lançamento tem a presença do ministro dos Transportes, Nitin Gadkari, e do ministro do Petróleo e Gás Natural, Hardeep Singh Puri, o que evidencia a importância estratégica do projeto para o governo local.

Por enquanto, a Maruti Suzuki mantém segredo sobre o modelo escolhido para a estreia, mas a imprensa local aposta em duas opções já exibidas na forma de protótipos: o compacto Wagon R e o crossover Fronx. O primeiro é considerado favorito por seu perfil popular e pelo grande volume de vendas no mercado indiano.

O anúncio vai além de um simples lançamento de produto: o governo trata a expansão do etanol como uma política de Estado para diminuir a dependência energética externa e fortalecer a economia rural.

A chegada do primeiro modelo flex representa um passo importante nessa estratégia. Hoje, a Índia importa cerca de 87% do petróleo que consome, tornando sua economia vulnerável às oscilações do mercado internacional e às tensões geopolíticas.

Embora a redução nas emissões também faça parte dos objetivos, o principal motivador parece ser mesmo econômico. Ao substituir parte da gasolina importada por etanol produzido localmente, o país busca ganhar autonomia em relação ao petróleo importado e, ao mesmo tempo, criar uma nova fonte de renda para o setor agrícola. 




Maruti Suzuki Wagon R – protótipo flex

Foto de: Reprodução

Enquanto a produção brasileira de etanol está fortemente concentrada em uma cadeia agroindustrial de larga escala, liderada por grupos como Raízen, São Martinho e BP Bioenergy, a Índia pretende produzir o combustível a partir da cana-de-açúcar, do milho, do arroz quebrado e até de resíduos agrícolas fornecidos por milhões de pequenos e médios agricultores. A ideia é substituir parte das importações de combustíveis fósseis por uma cadeia produtiva doméstica, mantendo mais recursos dentro da economia nacional.

Nos últimos anos, o ministro dos Transportes da Índia citou repetidamente o Brasil como referência mundial no uso do etanol e dos veículos flex, defendendo a adaptação dessa experiência à realidade local. A meta é reproduzir, ao menos em parte, a escala atingida no mercado brasileiro, onde os flex representam entre 80% e 85% dos emplacamentos de automóveis de passeio.

A gasolina vendida na Índia já contém até 20% de etanol (E20), graças a um programa de mistura obrigatória implantado nos últimos anos. O Maruti Suzuki flex elevará esse limite de forma significativa. Dependendo da versão, poderá utilizar desde gasolina convencional até etanol hidratado puro (E100).

A Índia não está repetindo exatamente o caminho percorrido pelo Brasil. Enquanto os flex brasileiros surgiram para permitir ao consumidor escolher entre gasolina e etanol em um mercado onde ambos os combustíveis já estavam amplamente disponíveis, os indianos estão utilizando a tecnologia para acelerar uma transição energética planejada pelo governo.

O passo seguinte ao E20 será ampliar gradualmente a oferta de combustíveis com concentrações muito maiores de álcool, como E85 e E100. Para o governo indiano, os carros flex representam apenas uma etapa intermediária rumo a um futuro em que o etanol puro tenha participação cada vez maior na matriz energética do transporte, e não apenas como alternativa à gasolina.



Toyota Innova Hycross flexfuel - protótipo hibrido flex

Toyota Innova Hycross flexfuel – protótipo hibrido flex

Foto de: Reprodução

E os postos?

Em alguns pontos, o programa indiano remete aos primeiros dias do Proálcool, em 1975. Ainda faltam elementos básicos, como uma rede de postos equipada com bombas de etanol. Há uma meta anunciada de 5 mil postos fornecendo E100, mas isso ainda deverá levar cerca de dois anos.

Além da Maruti Suzuki, outros fabricantes já estão em estágios avançados no desenvolvimento de seus carros a etanol/gasolina. A joint venture Toyota Kirloskar Motor é um exemplo: tem prontos protótipos híbridos-flex da minivan Innova HyCross — e diz que foi preciso adaptar essa solução, já bem conhecida nos Corolla e Corolla Cross brasileiros, ao padrão indiano:

“Embora o Brasil tenha introduzido tecnologia semelhante em 2019, suas normas de emissão são menos rigorosas que as da série BS 6. Baseado no modelo Innova HyCross, nosso protótipo foi projetado para se adequar às normas BS 6 (Stage II) da Índia, tornando-se o primeiro carro do mundo nesse padrão.”, explica um comunicado da empresa. Desde 2022, há um Corolla Hybrid flex brasileiro na Índia, sendo usado para demonstrações.


O que você pensa sobre isso?


Curiosamente, muitas das dúvidas levantadas atualmente pelos consumidores indianos soam familiares aos brasileiros. Questões sobre consumo, durabilidade, desempenho, disponibilidade de combustível, manutenção e valor de revenda dominam os debates locais, exatamente como aconteceu por aqui quando os primeiros carros flex chegaram às lojas, em 2003.

Essa adesão ao etanol não significa que a Índia esteja ignorando a era da eletrificação. Em outubro do ano passado, o mesmo ministro Gadkari lançou um programa de incentivo à produção de modelos elétricos simples e cada vez mais baratos. Os BEVs já representam 4,5% das vendas de automóveis de passeio no país, quarto maior produtor de veículos do mundo. É a velha história: não se deve pôr todos os ovos na mesma cesta.



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