A Alliança Saúde, rede de clínicas de diagnóstico e imagem, deu início à reestruturação de uma dívida de R$ 1,1 bilhão ao protocolar nesta quarta-feira, 5, seu plano de recuperação extrajudicial. O movimento não marca apenas uma tentativa de reorganizar as finanças da companhia, mas também afasta um antigo sonho: virar operadora de saúde.
O plano é anterior à chegada da Geribá Investimentos, que assumiu o controle da Alliança no início deste ano. Em 2020, ainda sob outra administração, a companhia lançou o Cartão Alliança, um marketplace de saúde por assinatura voltado principalmente à população sem plano de saúde. A iniciativa funcionaria como porta de entrada para um ecossistema mais amplo de serviços, aproximando pacientes, médicos e parceiros comerciais em torno da marca. O plano precisava ser bom e barato.
Barato, era. Custava R$ 19,90. No ano de lançamento, o Cartão Alliança alcançou 135 mil vidas e chegou a 14 estados. Depois de 2021, porém, a companhia praticamente deixou de divulgar indicadores da iniciativa, que perdeu espaço na estratégia do grupo. Já naquela época faltava o principal: dinheiro.
Tiros n’água
Sem dinheiro em caixa — e cada vez mais distante do plano de virar operadora de saúde —, a Alliança passou a apostar no crescimento por meio de contratos públicos. A principal vitrine dessa estratégia foi a PPP de diagnóstico por imagem da Bahia, iniciada em 2015 e considerada a primeira do país nesse segmento. Desde então, porém, a companhia não conquistou outra parceria público-privada de porte semelhante.
Com apostas malfadadas, a Alliança voltou a apostar em aquisições para expandir sua presença em medicina diagnóstica, com operações envolvendo ativos como ProEcho, CEPEM, LabSP e Cura, mas elas também nunca foram plenamente integradas, dea cordo com fontes da operação ouvidas por EXAME Insight.
Com a chegada da Geribá, a prioridade deixou de ser a expansão para dar lugar a um programa de eficiência operacional. A estratégia combinou investimentos em tecnologia, revisão de processos e um turnaround das unidades da rede, que reúne marcas como CDB, Cedimagem, Axial e Delfin. Não foi suficiente para evitar o plano de recuperação extrajudicial, após tantas apostas mal-sucedidas.
Lições da empresa ao lado
A Alliança não é a primeira aposta da Geribá Investimentos em uma empresa de saúde pressionada financeiramente. A gestora também figura entre os principais acionistas da Oncoclínicas, onde ingressou em 2025 ao converter créditos em participação acionária durante a reestruturação de capital da companhia. Na Alliança, porém, deu um passo além: assumiu o controle do negócio por meio do Tessai FIP e passou a conduzir diretamente a reorganização financeira.
Apesar de atuarem em frentes diferentes da saúde, Alliança e Oncoclínicas compartilham a mesma equação financeira: cresceram por aquisições, dependem das negociações com operadoras de planos de saúde e exigem investimentos pesados em expansão e tecnologia. Com margens comprimidas e geração de caixa pressionada, tornaram-se candidatas naturais para a estratégia da Geribá, gestora especializada em special situations, voltada à reestruturação de empresas em momentos de estresse financeiro.
Alta adesão e volta dos fundadores
O plano de recuperação extrajudicial da Alliança nasce com um grau relevante de apoio dos credores. O pedido de homologação já conta com a adesão de mais de 83 credores, que representam cerca de 54% dos R$ 1,1 bilhão em créditos abrangidos pela reestruturação — percentual superior ao quórum mínimo exigido pela Lei de Recuperação e Falências.
Segundo a Alliança, mais de 92% do valor dos créditos dos credores que aderiram ao plano foi direcionado para a conversão em ações da empresa, em vez da opção de recebimento em dinheiro. Entre os apoiadores está a Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (AFIP), um dos grupos ligados aos médicos fundadores da companhia, que voltará a integrar a base acionária da Alliança ao converter seus créditos em participação societária.
O plano oferece três alternativas aos credores: converter integralmente os créditos em ações da companhia; receber 30% do valor devido em 11 parcelas anuais, após um ano de carência, com perdão dos 70% restantes; ou optar pelo pagamento à vista de créditos de até R$ 15 mil. Para fornecedores estratégicos e locadores de imóveis, a empresa criou condições específicas, condicionadas à manutenção da relação comercial.
Além da reestruturação do passivo, a proposta autoriza a Alliança a captar novos recursos para reforçar o caixa, melhorar a estrutura de capital e financiar a retomada da operação — com melhores apostas, dessa vez.
