Polícia indicia outros dois após homem morrer durante contenção em Santos


Dois homens foram indiciados pela Polícia Civil por homicídio culposo após a morte de Douglas Pagliuca, de 40 anos, durante uma contenção física no bairro Embaré, em Santos, no litoral de São Paulo. Os investigados prestaram depoimento no 3º Distrito Policial de Santos e apresentaram versões sobre a participação de cada um na imobilização.

A investigação apura as circunstâncias da morte de Douglas, ocorrida em 30 de julho, depois de um episódio de surto na Rua Pedro Ivo. Segundo a Polícia Civil, os dois homens foram formalmente responsabilizados, em tese, pelo crime previsto no artigo 121, parágrafo 3º, do Código Penal, que trata de homicídio culposo.

O caso ganhou novos elementos com os interrogatórios realizados no âmbito do inquérito. Os depoimentos detalham como a contenção começou, a participação de três homens que inicialmente dominaram Douglas e o posterior uso de cordas para manter a vítima imobilizada.

Outros dois homem foram indiciados anteriormente e, agora, os agentes trabalham para identificar o quinto suspeito, que seria o responsável por aplicar o “mata-leão”.

Homem diz que viu vítima já dominada

Em depoimento, um dos homens afirmou que estava em casa, brincando com o filho no quintal, quando ouviu uma intensa gritaria na Rua Pedro Ivo. Ao sair para verificar o que estava acontecendo, segundo seu relato, viu Douglas em aparente estado de surto, gritando e proferindo ofensas.

Ele disse ainda ter ouvido barulhos de impacto contra um veículo e tomado conhecimento da participação de outros dois homens, anteriormente identificados na investigação .

Pouco depois, conforme o depoimento, ele deixou a residência e encontrou três pessoas imobilizando Douglas no chão. Segundo ele, um dos homens aplicava uma espécie de “gravata” na vítima, enquanto outro permanecia sobre o corpo dela e um terceiro segurava suas pernas.

Ainda de acordo com o investigado, Douglas apresentava pouca capacidade de reação e dificuldade para respirar quando ele passou a acompanhar diretamente a situação.

Corda usada para manter Douglas preso

O indiciado relatou que os homens que faziam a contenção pediram uma corda para auxiliar na imobilização. Ele então voltou para casa e pegou uma corda mais resistente, que, segundo afirmou, era utilizada em andaimes.

Quando retornou à rua, encontrou o vizinho com uma corda mais fina, aparentemente de varal. Ele disse ter alertado que aquele material poderia provocar lesões.

Segundo a própria versão do indiciado, ele entregou a corda que havia levado e chegou a fazer amarrações nos tornozelos de Douglas. O restante do material teria sido entregue a um dos outros envolvidos para a contenção dos braços.

O homem, porém, negou ter aplicado o golpe no pescoço ou participado da compressão física exercida sobre Douglas. Ele afirmou que sua atuação se limitou ao fornecimento da corda e à amarração dos tornozelos.

O indiciado também declarou que, depois que os demais homens saíram de cima da vítima, percebeu que Douglas estava inconsciente, sem conseguir falar ou reagir. Ele permaneceu no local até a chegada da Polícia Militar e do atendimento médico.

Vizinho afirma que não participou da imobilização

Já o vizinho apresentou uma versão diferente sobre sua participação. Ele afirmou que chegou ao local quando a contenção já estava acontecendo e que não presenciou o que havia ocorrido antes de os três homens dominarem Douglas.

Segundo ele, quando chegou, viu três pessoas sobre o corpo da vítima, que já estava completamente imobilizada. Ele afirmou que inicialmente apenas observou a situação, sem interferir.

Posteriormente, conforme seu depoimento, um dos presentes pediu uma corda. Ele então entrou em casa e pegou uma corda de varal. Ao retornar, entretanto, teria sido alertado por outro homem de que o material era muito fino e poderia provocar ferimentos.

Por isso, ele afirmou que não utilizou a corda e que não sabe dizer quem fez as amarrações posteriormente empregadas na vítima.

O investigado também declarou que não conseguia visualizar adequadamente Douglas, porque os três homens permaneciam sobre o corpo dele. Por esse motivo, disse não ter condições de afirmar se a vítima ainda estava consciente ou reagia naquele momento.

O vizinho afirmou ainda que não conhecia Douglas nem os homens que participavam da contenção. Ele permaneceu nas proximidades até a chegada da Polícia Militar e da ambulância e disse ter descoberto somente no dia seguinte, por meio de vizinhos, que Douglas havia morrido.

Investigação aponta diferentes níveis de participação

Na análise dos depoimentos, a Polícia Civil identificou pontos de convergência e divergência entre as versões apresentadas pelos dois investigados.

Os dois afirmaram que chegaram à dinâmica da ocorrência depois que Douglas já estava sendo contido por três homens. Também confirmaram que houve um pedido por uma corda para auxiliar na imobilização. A principal diferença está na participação atribuída a cada um.

O primeiro indiciado admitiu ter fornecido a corda posteriormente utilizada e ter amarrado os tornozelos de Douglas. Já o vizinho sustentou que apenas buscou uma corda de varal, que não chegou a ser utilizada, e negou ter participado diretamente da contenção.

A Polícia Civil considera necessário avaliar individualmente a conduta de cada envolvido e estabelecer se existe relação entre as ações praticadas durante a imobilização e a morte de Douglas.

Os novos depoimentos ainda serão confrontados com os demais elementos reunidos no inquérito, incluindo laudos periciais, testemunhos, imagens e outras diligências.

Imagens registraram parte da contenção

Imagens de câmeras de segurança já analisadas pela Polícia Civil mostram parte da sequência que antecedeu a morte.

Nas gravações, Douglas aparece correndo entre veículos, puxando um vaso de planta, batendo contra o portão de um edifício e se jogando no chão. Em seguida, três homens se aproximam e iniciam a contenção.

As imagens mostram dois deles segurando os braços e as pernas da vítima enquanto outro utiliza o celular para pedir ajuda. Em determinado momento, um dos homens se senta sobre o pescoço de Douglas e aplica um golpe conhecido como “mata-leão”.

Depois que Douglas perde a consciência, os envolvidos utilizam uma corda para mantê-lo preso até a chegada do socorro. A vítima foi encontrada pelo Samu em estado grave e encaminhada para a UPA Zona Leste, onde morreu por volta das 18h55.

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou asfixia como causa da morte, elemento que passou a ter relevância central na investigação sobre a forma como Douglas foi contido.

Caso segue sob investigação

A Polícia Civil ainda realiza diligências para esclarecer toda a dinâmica da ocorrência e determinar a responsabilidade individual dos envolvidos.

O indiciamento por homicídio culposo representa a conclusão da autoridade policial sobre a existência, em tese, de elementos que apontam para a prática do crime, mas não significa condenação.

A responsabilização criminal definitiva depende da análise do caso pelo Ministério Público e, posteriormente, da Justiça.

Source link


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *