Nada de estúdio sofisticado, produção gigantesca ou uma equipe de dezenas de pessoas. Tinha um sofá, um fundo improvisado, um flash e a esposa do cantor cuidando da maquiagem.
O resultado foi tão diferente que Jorge olhou para as imagens e disse que finalmente estava se reconhecendo.
Por trás desse ensaio está Nayara Andrade, fotógrafa de São Vicente, que construiu uma carreira internacional justamente por fazer algo que aprendeu desde o começo: procurar a pessoa antes da fotografia.
Foto: Nayara Andrade
Jorge quando viu o resultado, reconheceu algo que estava procurando havia tempos.
“Fazia tempos que eu não me reconhecia. Esse sou eu. Estou me vendo nas fotos. Fazia tempos que eu não me reconhecia tão fielmente em imagens como você fez”, contou Jorge à fotógrafa.
Logo depois, veio outro reconhecimento: “Menina Nay, você é uma artista”.
Antes dos grandes nomes
Nayara cresceu no Jóquei Clube, em São Vicente, e começou a carreira trabalhando em eventos.
O início teve pouco glamour e muita correria. Em alguns trabalhos, ela precisava enfrentar ruas alagadas para chegar ao evento. Depois, ainda trocava de roupa pelo caminho para conseguir trabalhar.
“Os primeiros eventos, eu saía com água no joelho para ir trabalhar, trocava de roupa no meio do caminho”, relembra.
A rotina também podia chegar a 18 horas de trabalho.
Um casamento começava ao meio-dia e terminava perto da meia-noite. Depois, Nayara voltava para casa, trocava de roupa e seguia para fotografar uma balada até as 5 horas da manhã.
Naquela época, o sonho era simples: ser reconhecida.
Ela queria que pessoas do mercado olhassem para seu trabalho e percebessem que havia algo diferente ali. E essa diferença apareceu cedo.
Em um dos primeiros estúdios conhecidos de Santos onde trabalhou, ouviu uma avaliação que poderia ter encerrado aquela história.
Um fotógrafo disse que ela não tinha talento e que morreria de fome se continuasse naquela profissão.
Nayara decidiu fazer o contrário.
“Eu sabia que minha fotografia era boa, mas era diferente”, afirma.
A frase acabou ganhando outro significado com o tempo. Em vez de tentar reproduzir o estilo que esperavam dela, a fotógrafa passou a buscar clientes que se identificassem com seu olhar.
Foi ali, segundo ela, que nasceu uma espécie de regra para a própria carreira.
“Eu só vou fotografar para quem realmente conheça e goste do meu trabalho.”
A fotografia de família abriu portas que ela nem imaginava
A trajetória de Nayara ganhou força principalmente com casamentos e celebrações familiares. Esses trabalhos ajudaram a construir uma fotografia marcada pela proximidade e pela observação.
Depois, artistas e grandes nomes do marketing digital começaram a procurar seu trabalho.
A princípio, pode parecer uma mudança de rota. Para Nayara, não foi.
A fotografia de família continuou sendo a base do olhar que ela leva para outros universos.
“Na verdade, foi justamente essa minha bagagem documental, essa minha bagagem com fotografia de família que levou a artistas”, explica.
A lógica é simples: quem aprendeu a observar relações, gestos e emoções em uma família também consegue encontrar essas camadas em uma pessoa diante da câmera.
Por isso, o trabalho com artistas não exigiu que ela abandonasse aquilo que construiu.
“Não houve uma transição. Acabei agregando isso sem mudar as minhas características, que é captar a emoção dos momentos e deixar eles congelados.”
Foi assim que a história chegou até Jorge Vercilo.
A relação profissional começou no casamento do cantor, em Salvador, na Bahia. Com o passar dos anos, Nayara também fotografou momentos da família, como o aniversário da filha de Jorge, no Rio de Janeiro.
Em janeiro, durante uma dessas viagens ao Rio, surgiu o ensaio que mudaria a relação da fotógrafa com a turnê de 30 anos do artista.
O que faz alguém se reconhecer numa fotografia?
A reação de Jorge ajuda a entender o centro do trabalho de Nayara.
Para ela, uma fotografia pode ser tecnicamente impecável e ainda assim não dizer nada sobre quem está diante da câmera.
O problema aparece quando a produção vira um processo automático.
“Eu acredito que as pessoas estão fazendo tudo muito no mecânico, muito no automático, muito tecnológico”, avalia.
Nayara acredita que a fotografia precisa considerar também a história que aquela imagem vai carregar.

Foto: Nayara Andrade
A pergunta não termina no momento do clique. Ela continua quando a fotografia reaparece anos depois.
“O que vão lembrar com aquela fotografia daqui a 2, 5, 15 anos?”, questiona.
Essa preocupação explica parte da relação que ela construiu com seus clientes. Nayara diz que escolhe trabalhos muito mais pela conexão do que pela notoriedade ou pelo dinheiro.
“Eu sou muito do sentir”, resume.
Segundo ela, já houve momentos em que deixou de fechar trabalhos por não sentir que conseguiria entregar aquilo que considera verdadeiro.
Essa escolha também ajuda a explicar por que uma fotografia feita de maneira tão simples conseguiu representar uma turnê de um artista conhecido nacionalmente.
Mais de 250 prêmios depois
O olhar de Nayara também encontrou reconhecimento fora do Brasil.
A fotógrafa, diretora e produtora audiovisual acumula mais de 250 prêmios internacionais. Em 2018, apareceu entre as 20 melhores fotógrafas de casamento do mundo.
Vieram ainda convites para palestras e congressos internacionais.
Entre 2018 e o período anterior à pandemia, ela considera ter vivido o ápice da carreira.
Mas o sucesso trouxe uma questão que não aparecia nos primeiros anos.
Com mais reconhecimento, algumas pessoas passaram a procurar Nayara pelo status associado ao seu nome. E isso não correspondia ao tipo de trabalho que ela queria construir.
“Eu comecei a ver que as pessoas estavam me procurando muito também pelo status, pela fama, e não era isso que eu queria.”
A resposta foi diminuir a exposição.
Desde então, Nayara não abre mais a agenda da mesma maneira. Ela prefere indicações e pessoas que chegam interessadas na essência do trabalho.
A decisão teve impacto financeiro. Ainda assim, ela considera que ganhou algo que não aparece em planilha.
“Isso teve um impacto imenso financeiramente, digamos assim, mas isso deixa meu coração em paz.”
Agora, Nayara está construindo uma nova versão
A fotógrafa vive uma nova fase profissional e pessoal. Depois de mudanças importantes nos últimos anos, ela passou a repensar também os próximos caminhos da carreira.
A fotografia continua presente, mas divide espaço com produção audiovisual, branding, posicionamento de marca, social media, mentorias e cursos.
Nayara também atua em projetos ligados ao Canva e participa da produção de eventos da marca.
Essa expansão faz sentido dentro da trajetória dela. Afinal, seu trabalho sempre esteve relacionado à capacidade de entender pessoas e transformar essa leitura em comunicação.
Agora, a ideia é levar esse olhar para quem também precisa descobrir como quer ser percebido.
Ela conta que pretende desenvolver projetos de mentoria e formação, mas sem transformar esse trabalho em uma corrida pelo lucro.
O objetivo está mais próximo de compartilhar aquilo que aprendeu durante uma carreira construída na prática.
Nayara é autodidata em fotografia e também desenvolveu outras habilidades ao longo da vida. Ela é multiinstrumentista e afirma ter ouvido absoluto. Em diferentes áreas, diz ter aprendido muito observando.
Essa característica aparece novamente quando fala dos próximos projetos: primeiro sentir, depois encontrar a forma.
Ainda não existe um nome para essa nova fase. Existe, porém, uma direção.
Fotografia também é contar histórias
Uma imagem feita diante de um sofá, com estrutura simples e sem grandes aparatos, acabou apresentando ao público um artista celebrando três décadas de carreira.
Para Nayara, aquele resultado representa algo que acompanha seu trabalho desde os primeiros eventos em São Vicente.
A busca por uma imagem que pareça verdadeira.
No começo, disseram que seu jeito de fotografar era estranho. Anos depois, essa mesma diferença ajudou a construir uma carreira premiada internacionalmente e levou seu trabalho até grandes artistas.
No fim, a melhor medida de uma fotografia não está apenas no número de prêmios ou no tamanho do nome retratado.
Mas sim naquele segundo em que alguém olha para a própria imagem e pensa: “esse sou eu”.
