O Prime Video acaba de adicionar ao seu catálogo um daqueles filmes que chegam praticamente de mansinho, mas têm tudo para deixar o público pensando por muito tempo depois dos créditos finais. ‘O Aniversário’ (Anniversary) é um thriller político perturbador, desconfortável e assustadoramente próximo da realidade, que começa como um simples drama familiar e, pouco a pouco, transforma aquilo que parecia ser a celebração de uma família perfeita em um verdadeiro pesadelo.
Dirigido pelo cineasta polonês Jan Komasa, indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional por ‘Corpus Christi’, o longa reúne um elenco impressionante encabeçado por Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O’Brien, Zoey Deutch, Madeline Brewer e Mckenna Grace. E talvez seja justamente o fato de não existir nenhum monstro, assassino mascarado ou criatura sobrenatural que torne tudo ainda mais assustador: o horror aqui nasce das pessoas, das ideias e da facilidade com que uma sociedade aparentemente estável pode começar a desmoronar.
Assista ao trailer:
A história começa durante a comemoração dos 25 anos de casamento de Ellen e Paul Taylor, vividos por Diane Lane e Kyle Chandler. Eles construíram uma vida confortável em Washington e criaram quatro filhos: Josh (Dylan O’Brien), Anna (Madeline Brewer), Cynthia (Zoey Deutch) e Birdie (Mckenna Grace).
Ellen é professora de ciência política em Georgetown e uma intelectual conhecida publicamente, enquanto Paul é um chef e restaurateur cujo estabelecimento é frequentado por figuras influentes da capital norte-americana. A reunião familiar parece perfeita até Josh aparecer acompanhado da nova namorada, Liz, interpretada por Phoebe Dynevor.
Ellen imediatamente reconhece a jovem: ela foi sua aluna e, no passado, as duas entraram em conflito por causa das ideias defendidas por Liz. O que inicialmente parece apenas aquele desconforto clássico de uma reunião familiar vai assumindo proporções muito maiores quando a jovem revela estar prestes a publicar um livro chamado ‘The Change’, ou ‘A Mudança’, defendendo uma transformação radical na estrutura política do país.
É justamente aí que ‘O Aniversário’ começa a revelar sua verdadeira natureza. Em vez de contar sua história durante alguns dias ou semanas, o roteiro acompanha essa família ao longo de cinco anos, passando por diferentes reuniões e celebrações enquanto o espectador observa, quase impotente, a transformação acontecendo diante de seus olhos. As ideias que inicialmente parecem radicais começam a ganhar espaço, Liz se torna cada vez mais influente e ‘A Mudança’ deixa de ser apenas o título de um livro para se transformar em um movimento capaz de alterar profundamente a sociedade.
O que Komasa faz de maneira particularmente inquietante é mostrar que grandes rupturas nem sempre chegam acompanhadas de explosões ou tanques nas ruas. Às vezes elas acontecem lentamente, por meio de discursos, concessões, mudanças aparentemente pequenas e pessoas convencidas de que aquilo que está acontecendo ao redor delas nunca chegará perto demais de suas próprias casas.
E chega. Conforme os anos avançam, as consequências da transformação do país começam a invadir diretamente a casa dos Taylor. Relações são destruídas, antigas certezas desaparecem e pessoas que antes conseguiam discutir suas diferenças durante um almoço passam a enxergar umas às outras quase como inimigas.
É nesse ponto que ‘O Aniversário’ abandona de vez a aparência de drama familiar e assume contornos de uma distopia política sufocante, usando uma única família como um microcosmo para mostrar algo muito maior acontecendo do lado de fora. O mais incômodo é que Komasa evita construir um futuro cheio de tecnologias mirabolantes ou elementos típicos da ficção científica. Visualmente, aquele mundo continua reconhecível.
As casas continuam bonitas, as pessoas continuam indo ao trabalho, as famílias continuam tentando comemorar datas especiais. Só que, por baixo dessa aparente normalidade, alguma coisa mudou profundamente. E quando os personagens finalmente percebem a dimensão do que está acontecendo, talvez já seja tarde demais.
O elenco ajuda a tornar tudo ainda mais poderoso. Diane Lane entrega uma Ellen determinada a proteger tanto suas convicções quanto sua família, enquanto Kyle Chandler oferece a Paul uma humanidade que ajuda a manter a história emocionalmente ancorada mesmo quando o cenário ao redor começa a ficar cada vez mais extremo. Mas uma das escolhas mais interessantes está em Phoebe Dynevor, que foge completamente da caricatura ao interpretar Liz.
A personagem não surge como uma vilã cinematográfica tradicional. Ela é elegante, educada, articulada e perfeitamente capaz de entrar em uma sala e conquistar a atenção das pessoas. Dylan O’Brien também ganha espaço conforme Josh passa por sua própria transformação, enquanto Zoey Deutch, Madeline Brewer e Mckenna Grace representam diferentes maneiras de reagir ao mundo que está se formando ao redor da família.

A proposta dividiu parte da crítica justamente porque Jan Komasa e a roteirista Lori Rosene-Gambino preferem não explicar detalhadamente cada aspecto ideológico de ‘A Mudança’. Há críticos que consideraram essa indefinição uma fragilidade do roteiro, enquanto outros enxergaram força justamente na maneira como o filme concentra sua atenção nas consequências humanas da radicalização e da concentração de poder. No Rotten Tomatoes, o longa registra atualmente 68% de aprovação da crítica, enquanto o público verificado aparece com 78%, números que mostram uma recepção positiva, embora longe de uma unanimidade. O consenso crítico do agregador destaca justamente a eficiência do filme como thriller, mesmo diante das divergências sobre o funcionamento de sua parábola política.
E é difícil assistir a ‘O Aniversário’ sem pensar em outras grandes distopias que utilizaram situações extremas para discutir sociedades aparentemente normais. Há ecos de produções como ‘O Conto da Aia’, mas o filme encontra sua própria identidade ao manter o foco quase obsessivamente dentro de uma família. O terror não está somente naquilo que acontece nas instituições ou nas ruas, mas na possibilidade de alguém que você ama começar a enxergar o mundo de uma maneira completamente diferente da sua. A própria crítica norte-americana destacou esse aspecto: Matt Zoller Seitz, do RogerEbert.com, observou que o longa acompanha o crescimento e a desintegração dessa família enquanto um movimento autoritário se espalha pela sociedade, enquanto o Los Angeles Times descreveu a obra como um estudo sobre a velocidade com que uma realidade confortável pode se transformar em uma distopia. É justamente essa proximidade com situações reconhecíveis que faz algumas sequências causarem mais desconforto do que muitos filmes de terror convencionais.
Com 1h51 de duração, ‘O Aniversário’ é daqueles filmes que provavelmente vão provocar discussões enormes depois da sessão — e talvez seja impossível sair completamente indiferente àquilo que Jan Komasa coloca na tela. Não se trata de um suspense interessado apenas em descobrir quem é o vilão ou em entregar uma grande reviravolta no terceiro ato. Sua pergunta é muito mais desconfortável: até onde uma sociedade pode mudar enquanto as pessoas continuam vivendo normalmente e acreditando que ainda existe tempo para reagir? Ao transformar uma festa de aniversário de casamento no ponto de partida para acompanhar cinco anos de transformação de uma família e de todo um país, o diretor constrói um thriller sombrio que fica progressivamente mais sufocante até chegar aos seus momentos finais. Para quem procura no Prime Video algo provocativo, pesado e capaz de continuar ecoando na cabeça muito depois dos créditos, ‘O Aniversário’ já está disponível no catálogo e merece entrar no radar.
Crítica | ‘O Aniversário’ – Um filmaço provocativo e com ares nem tão distópicos
