Papa alerta para riscos da IA e critica morte assistida


O papa Leão 14 chegou à França nesta sexta-feira (25) para a primeira visita oficial de um pontífice em quase 20 anos. Em seu primeiro discurso da viagem, o pontífice alertou para o uso de IA (Inteligência Artificial) e o risco de “perdermos nossa humanidade em meio ao paraíso das máquinas”.

O pontífice chegou à Catedral de Notre-Dame, em Paris, enquanto multidões entusiasmadas se perfilavam pelas ruas da capital francesa no primeiro dia da visita histórica do pontífice. Após saudar as pessoas que o aguardavam a partir do papamóvel, o pontífice entrou na icônica catedral, reaberta em 2024 após o incêndio devastador que quase a destruíra cinco anos antes.

Em sua visita, ele reafirmou firmemente a oposição da Igreja Católica às iniciativas de morte assistida e barriga solidária, afirmando que são “desvios” da ciência não guiados pela consciência. O discurso ocorre dois meses depois de a França ter criado um direito legal à morte para pessoas com doenças incuráveis, após anos de intenso debate.

O papa não mencionou especificamente a nova lei francesa, que enfrentou forte oposição dos bispos católicos locais. “Reitero firmemente que a proteção do direito à vida constitui a base indispensável de todos os outros direitos humanos”, disse o líder da Igreja em um discurso dirigido ao presidente Emmanuel Macron e a outros políticos no Palácio do Eliseu.

“Às vezes, fico preocupado com certas tendências da sociedade que correm o risco de transformar a ciência e a tecnologia em empreendimentos orientados pelo lucro, promovendo a manipulação genética, a gestação por substituição, o comércio de órgãos humanos ou a possibilidade de planejar a própria morte”, afirmou.

Leão 14, que divulgou em maio um manifesto veemente alertando sobre os perigos da IA e instando por uma regulamentação internacional do setor, voltou a abordar o tema. “Se quisermos evitar perder nossa humanidade em meio a um ‘paraíso de máquinas’ que invade e condiciona nossa vida cotidiana, há uma necessidade urgente de educação para o discernimento ético”, afirmou.

Líderes católicos também esperam que a viagem restaure a reputação da Igreja após um relatório devastador de 2021 sobre abuso infantil por padres ter causado revolta pelo país.

Leão 14, que se reunirá com sobreviventes de abuso durante a viagem de quatro dias, também deve atrair grandes multidões para uma missa ao ar livre no centro de Paris e se dirigirá a líderes franceses, da ONU e europeus em eventos separados durante sua turnê por três cidades.

“A visita do papa Leão à França provocou uma verdadeira onda” de interesse, disse à agência Reuters o bispo francês aposentado Marc Stenger. Cerca de 600 mil pessoas se inscreveram para participar da missa ao ar livre no sábado, perto da famosa avenida Champs-Élysées, em Paris.

“Os católicos franceses estão dizendo em voz alta que precisam da Igreja para encontrar seu caminho nestes momentos de incerteza na história mundial”, disse Stenger, citando os números das inscrições.

A agenda de Leão em Paris ainda inclui discursos para a equipe da sede da Unesco, órgão das Nações Unidas para a cultura e a educação, que enfrenta déficits orçamentários após a retirada do presidente dos EUA, Donald Trump, da agência em 2025.

O pontífice também conduzirá uma cerimônia de oração em Paris, na catedral de Notre-Dame, agora restaurada, na primeira visita de um papa desde que um incêndio devastador quase destruiu a obra gótica em 2019.

Além de Paris, a viagem do papa inclui uma parada no famoso santuário católico de Lourdes, no sudoeste da França. A viagem culminará em Metz, cidade próxima à fronteira com a Alemanha que foi o lar do falecido Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia, para um discurso sobre “as raízes da Europa para a paz e a unidade”.

O cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo e ex-líder da comissão da Igreja para os bispos da UE, disse que Leão exortará os líderes europeus a serem “incansáveis artífices e construtores da paz”.

Macron convidou líderes de todos os 27 Estados-membros da UE para assistir ao discurso em Metz, disse Charles Personnaz, embaixador da França junto ao Vaticano. Não se sabe quantos comparecerão, disse ele, já que o evento coincide com a Assembleia Geral da ONU em Nova York.

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, também pode comparecer, segundo reportagens da mídia local. O gabinete do ucraniano não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Leão se reunirá com sete vítimas de abuso por parte do clero católico no domingo, em Lourdes, segundo informaram pessoas envolvidas na negociação. O Vaticano, que normalmente só divulga declarações sobre os encontros do papa com vítimas de abuso após o fato, não forneceu mais detalhes.

Um relatório de 2021 revelou que cerca de 330 mil crianças francesas foram vítimas de abuso por parte do clero católico e de líderes leigos ao longo de sete décadas. Ecoando relatórios semelhantes nos Estados Unidos, na Espanha e em Portugal, o documento afirmou que a Igreja demonstrou “indiferença profunda, total e até cruel” para com as vítimas.

Desde então, bispos franceses introduziram medidas de indenização e proteção, mas as vítimas continuam pressionando os líderes da Igreja para que assumam responsabilidade.

Stenger, que liderou a Diocese de Troyes de 1999 a 2020, afirmou que os escândalos de abuso “feriram profundamente a Igreja e prejudicaram sua credibilidade”.

Um funcionário do Vaticano disse que o papa pediu que o encontro em Lourdes fosse organizado como um diálogo e incluísse vítimas de diversas origens, incluindo aquelas que sofreram abuso na idade adulta, e de diferentes regiões da França.

Lourdes, um dos locais de peregrinação católica mais populares do mundo, está ligada a um escândalo que pressiina o Vaticano. Seu santuário possui uma série de mosaicos criados pelo padre Marko Rupnik, um proeminente sacerdote e artista com laços com o Vaticano, que foi acusado de abuso sexual.
Rupnik, acusado por mais de 20 mulheres, não se pronunciou publicamente sobre as acusações.

Atualmente, ele está passando por um julgamento canôn co no Vaticano. O bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, afirmou em agosto que havia ordenado que os mosaicos fossem cobertos para a visita do papa.

Veja a agenda do Papa Leão 14 na visita à França (Horário de Brasília)

Sexta-feira (25) | Paris

6h | Visita a Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu
6h45 | Encontro com autoridades e sociedade civil, também no palácio
10h00 | Visita à sede da Unesco
12h15 | Celebração na Catedral de Notre-Dame
16h | Vigília de oração com jovens no estádio nacional da França

Sábado (26) | Paris e Lourdes

4h | Visita ao centro de acolhimento de migrantes e exilados Maison Bakhita
5h15 | Encontro com membros da Igreja no Instituto Católico de Paris
10h | Missa na praça da Concórdia
14h40 | Oração Santuário de Nossa Senhora de Lourdes

Domingo (27) | Lourdes

4h | Encontro com bispos no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes
6h | Missa no santuário
10h30 | Encontro com pessoas do centro hospitalar do santuário
11h45 | Encontro com religiosas no Mosteiro do Carmelo de Lourdes
16h | Oração e procissão no santuário

Segunda-feira (28) | Metz

5h | Encontro inter-religioso em Metz
6h | Encontro ‘Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade’
11h | Missa na Catedral de Santo Estêvão
13h30 | Cerimônia de despedida no aeroporto de Metz

Source link


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *