Crítica | Rosebush Pruning – Sadismo, Violência e Assédio no Cotidiano de Família Desfuncional [Festival do Rio]


Dizem que os ricos, em geral, possuem um estilo de vida bastante peculiar. Particularmente, não temos como confirmar isso, afinal, nós, meros mortais, não somos ricos e não frequentamos esses espaços. Porém, quando retratados nas novelas e nos filmes, sempre os vemos como algo excêntricos, como se as leis dos humanos não recaíssem sobre eles e que um ar de superioridade fosse cartada o suficiente para permitir determinados comportamentos. Mas… será mesmo? Em ‘Rosebush Pruning’ uma lupa é lançada sobre esse meio-ambiente, com exibição antecipada no Festival do Rio e que chega a partir de amanhã aos cinemas brasileiros.

Ed (Callum Turner, da franquia ‘Animais Fantásticos’) é o filho do meio da família rica. Em seu tempo super ocioso, gosta de perambular por aí, pegar carona e se fingir de gente comum. Mas, uma vez em casa, tem que lidar com a excentricidade de seu irmão mais novo, Robert (Lukas Gage, de ‘Acompanhante Perfeita’), sua irmã do meio, Anna (Riley Keough, da série ‘Daisy Jones and The Six’) e seu irmão mais velho, Jack (Jamie Bell, o jovem Billy de ‘Billy Elliot’). Entretanto, é o relacionamento de Jack com a jovem Martha (Elle Fanning, de ‘Valor Sentimental’) que começa a colocar em descompasso a dinâmica familiar, afinal, Jack está inclinado a sair de casa e ir morar com a namorada, o que faria com que suas atribuições fossem repassadas aos irmãos. Entre inveja, desejo, repulsa e vingança, essa família encontrará formas de se manter unida, mesmo que seja necessários métodos não convencionais.

Bizarro, esquisito e de mau gosto são alguns dos adjetivos que podemos pensar sobre a história proposta no roteiro de Marco Bellocchio e Efthimis Filippou. O enredo parte de um argumento objetivamente simples – uma família super rica, desfuncional e desocupada – para, neste núcleo, construir situações grotescas de puro sadismo cujo objetivo são meramente chocar e causar mal-estar no espectador. E não no sentido das cenas de terror e carnificina (que ocorrem, mas já nas cenas finais do longa), mas sim ao longo da trama, com cenas e acontecimentos que, mesmo sob o artifício da metáfora, causam repulsa.

Diante de tantos sentimentos negativos, cabe pensar qual a proposta do filme, e a resposta seria a de tão somente humanizar os super ricos, mostrar que eles também são “gente como a gente”. A questão é que enquanto o cidadão assalariado que leva quatro horas no trânsito para chegar ao trabalho para arranjar dinheiro pra pensão dos filhos tenta equilibrar, sei lá, uma vida oficial e uma vida extraconjugal, em ‘Rosebush Pruning’ os “coitados dos super ricos”, entediados, se relacionam apenas entre si, ninguém é melhor ou tão bom quanto eles e, portanto, todos os comportamentos dos personagens margeiam a sedução, ora inclinando para o assédio, ora de fato cometendo-o. Grotesco.

Com uma história tão repulsiva, é chocante pensar nos nomes reunidos neste elenco, que conta ainda com Pamela Anderson (que, sabe-se, não topa qualquer papel). E mesmo pensando no título do longa, ‘Rosebush Pruning’, que, sabe-se lá por que razão não recebeu tradução em português, significaria algo como “cortando o mal pela raiz”, sendo o mal em questão os arbustos de rosas no quintal da mansão, mencionado pelo personagem Ed, mas também como uma metáfora a esses rostinhos bonitos como rosas, mas espinhentos e podres por dentro.

O figurino, o desenho de produção são bem realizados, com cores aplicadas para realçar a vida nesses personagens mortos por dentro. Mas mesmo com os aspectos técnicos em destaque, ‘Rosebush Pruning’ não funciona como história, não entretém e ainda causa desconforto no espectador. As cenas finais de matança são interessantes, mas não são suficientes para sustentar os noventa e sete minutos que parecem uma eternidade. Um filme esquisito que só.

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