Após ficar afastado das telonas por quase duas décadas, o universo de ‘Sexta-Feira 13‘ renasce de forma inesperada. Em formato de série, o icônico assassino Jason Voorhees retorna às sombras e sua mãe retoma seu protagonismo. Apesar de ter sido ofuscada pelo legado de seu próprio filho, Pamela Voorhees é a assassina original do clássico de 1980 (Não se esqueça, Drew Barrymore!), e se tornou responsável pelo início de uma das sagas mais icônicas do gênero.
Na trama, após a trágica morte do seu filho, Pamela Voorhees se afunda no luto e se afasta da comunidade à qual um dia pertenceu. No entanto, quando dois estranhos surgem à sua porta investigando seu passado, uma sequência perturbadora de acontecimentos é desencadeada, levando Pam a lutar pela sobrevivência para proteger seu futuro… enquanto uma ameaça aterrorizante se revela real na floresta que cerca o acampamento em que ela trabalha.
Como já disse em minhas primeiras impressões da série, a ideia de desenvolver uma pré-sequência da franquia ‘Sexta-Feira 13‘ é complicada. Há um motivo para que, no decorrer de 12 filmes, pouco tenha se falado sobre o passado do Jason Voorhees (e olha que ele já foi até para o espaço!). A mitologia da franquia não faz o menor sentido e está cercada de inconsistências, então sempre foi consenso geral incorporar essas falhas no misticismo do personagem e entregar o que as pessoas realmente queriam ver: Jason matando jovens atraentes de formas cada vez mais violentas e inventivas.
Com o passado em evidência, era improvável que ‘Crystal Lake‘ pudesse simplesmente ignorar esses pontos, mas a série investe um episódio inteiro para desmistificar e explicar – detalhe por detalhe – a figura do Jason Voorhees e como ele se tornará o vilão slasher que conhecemos há décadas. Há um admirável trabalho por parte dos roteiristas em explicar todos os buracos da mitologia original, ainda que desconstrua todo o mistério envolvendo o personagem – algo que certamente irá desagradar boa parte dos fãs da franquia.
Certas informações são desnecessárias e mastigadas demais para o grande público, mas o episódio funciona muito bem como um conto isolado de terror por causa de sua estética saturada e vibrante, onde o sonho americano esconde uma realidade sombria de tortura e experimentos secretos. A explicação em torno do mistério de Jason é a mais óbvia e clichê possível, mas bem mais aceitável do que tentaram fazer em ‘Jason Vai para o Inferno: A Última Sexta-Feira‘ (1993), que rendeu uma das narrativas mais bizarras da franquia.

O maior acerto da série, no entanto, é a presença da Linda Cardellini (‘Scooby-Doo’). A atriz carrega todos os episódios nas costas, com uma performance honesta cujo luto genuinamente conquista nossa compaixão. Sua Pamela Voorhees parece uma pessoa de verdade; humana, falha e traumatizada. É uma anti-heroína que conquista seu espaço, embora seja difícil imaginar que esta seja a mesma personagem que conhecemos no filme clássico de 1980.
A violência é outro grande destaque positivo deste seriado. Desde o primeiro episódio, somos surpreendidos com mortes extremamente sangrentas, mantendo um ótimo equilíbrio entre o drama da narrativa e o terror que se espera de uma produção da franquia. Algumas dessas mortes, no entanto, poderiam ter investido um pouco mais em efeitos práticos. O CGI óbvio, muitas vezes usado para amplificar a brutalidade de um assassinato, nos traz de volta ao presente – traindo a excelente ambientação de época da série.

‘Crystal Lake‘ parece, de fato, uma extensão da franquia. A série está cheia de conexões e homenagens aos filmes originais. Há pelo menos duas sequências – a hippie sozinha na floresta e o casal se pegando na cabana – que fazem referência direta ao clássico de 1980, e que os fãs vão reconhecer imediatamente. Embora a reconstrução dessas cenas tenha sido muito óbvia (quase um remake!), gostei da subversão apresentada no segundo exemplo.
Apesar de não terminar com muitas pontas soltas, claramente há espaço para uma possível segunda temporada. Nós já sabemos como essa história vai terminar, mas é óbvio que os roteiristas têm outros planos antes de chegarmos ao destino final. Pessoalmente, gostaria que essa série seguisse a mesma forma de ‘Bates Motel‘, incorporando e reinterpretando o longa original; porque, quando mais conhecemos esses personagens, mais improvável fica acreditar que são os mesmos que vimos no longa de 1980.
