Sinal de socorro se populariza no enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes
Ler Resumo
Um simples gesto com as mãos, que se tornou um sinal global de socorro, ganha destaque no Brasil após proteger uma menina de 9 anos de um sequestro. O caso revela a urgência da educação para autoproteção infantil e a crítica de especialistas à resistência das escolas e à carência de políticas públicas de prevenção e orçamento para o tema.
Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O gesto é simples: basta mostrar a palma da mão, depois, dobrar o polegar para dentro e fechar os outros quatro dedos sobre ele. Criado em abril de 2020, durante a pandemia de Covid-19, pela Fundação de Mulheres Canadenses, para combater o aumento dos casos de violência doméstica, o sinal viralizou nas redes sociais, como o TikTok, e passou a ser adotado também por jovens em perigo.
No Brasil, ganhou fama em outubro, com a repercussão de vários casos envolvendo crianças e adolescentes noticiados pela imprensa. Num deles, uma menina de 9 anos estava indo para a escola com outras crianças, em Curitiba, quando foi abordada na rua por um homem de 54 anos, que tentou levá-la à força com ele. Com medo, a única reação que a menina teve foi fazer o sinal de socorro, sem que o homem percebesse. O primo, de 10 anos, que vinha logo atrás, reconheceu o gesto e correu para pedir ajuda aos funcionários de um posto de gasolina, que acionaram a Guarda Municipal. O homem, que já era monitorado por tornozeleira eletrônica por estupro de vulnerável, foi preso em flagrante.
A menina e o primo aprenderam o gesto com a avó, que conheceu o sinal pela televisão, numa reportagem sobre violência contra as mulheres, e decidiu ensiná-lo aos netos para que soubessem como pedir ajuda caso se sentissem ameaçados. Deu certo e a história pôde, assim, ter um final feliz.
“Essa educação para autoproteção tem sido um processo muito estimulado pela sociedade civil. Organizações que trabalham com atendimento a crianças têm percebido que isso pode ser uma boa iniciativa e muitas famílias realmente por decisão própria têm feito essa orientação”, conta Eva Cristina Dengler, superintendente de Programas da Childhood Brasil, em entrevista à coluna.
Segundo ela, a rede de ensino, no entanto, é bastante resistente a abordar esse assunto porque muitas famílias não querem que a temática, principalmente a educação sexual, seja tratada em sala de aula.
Continua após a publicidade
“As escolas acabam se abstendo de um papel que, na verdade, seria extremamente importante e necessário que fizessem”, critica a especialista, acrescentando que a sociedade precisa entender que autoproteção e orientação sobre situações de risco para crianças e adolescentes tornaram-se hoje fundamentais.
EDUCAÇÃO PARA A AUTOPROTEÇÃO
Há cerca de 20 anos, a Childhood Brasil, uma organização sem fins lucrativos criada pela rainha Silvia da Suécia, para promover e desenvolver soluções para prevenir e enfrentar o abuso e a exploração sexual contra crianças e adolescentes no país, começou um trabalho educativo com caminhoneiros que, depois, se estendeu para outros trabalhadores, como funcionários de rodovias e de grandes obras, e, neste ano, alcançou gerentes e frentistas de postos de gasolina, num projeto piloto.
Continua após a publicidade
“Acreditamos que o cidadão que tiver mais chance de contato com situações de crianças e adolescentes em risco [de abuso ou exploração sexual] precisa estar orientado sobre o que fazer”, diz Eva Dengler. A ideia é construir uma relação positiva com eles, para que se entendam como parte da solução.
Em 2005, quatro em cada dez caminhoneiros diziam que já tinham feito programa com adolescentes. Hoje, menos de um caminhoneiro (0,4) em cada dez faz essa afirmação. “Eles estão mais informados, sabem que é crime. Houve uma mudança muito grande de entendimento sobre o problema”, reconhece.
Em relação aos frentistas, há, segundo a especialista, um enorme receio de se envolver e a maioria deles (80%) não sabe o que fazer. “Eles veem uma situação estranha, como crianças andando no meio dos carros ou dos caminhões, mas acabam, muitas vezes, não fazendo nada porque desconhecem quem acionar”, diz ela.
Continua após a publicidade
Uma realidade que vem, aos poucos, mudando, como mostra esse caso da menina de 9 anos, que escapou de uma situação de violência graças também a rápida ação dos funcionários do posto de gasolina.
A organização trabalha ainda com programas de formação para professores. “O objetivo é fazer com que o professor seja capaz de falar sobre essa temática de autoproteção em sala de aula”, conta a especialista. “Há uma série de materiais pedagógicos e de apoio que ele pode usar, inclusive pequenos filmes, direcionados para diversas faixas etárias, para ajudar nesse diálogo de autoproteção”.
FALTA UMA POLÍTICA DE PREVENÇÃO
Continua após a publicidade
“O que falta no Brasil é uma política de prevenção”, acredita. Segundo ela, alguns estabelecimentos de ensino, por vontade própria, têm feito ações neste sentido, assim como o Programa Saúde na Escola (PSE). “Apesar disso, essa parte de proteção, autoproteção e educação sexual não está ainda implementada da maneira como deveria. Na prática, as escolas não estão conseguindo dar o peso que esses assuntos merecem”, alerta.
Dengler critica ainda a falta de orçamento para prevenção à violência. Segundo ela, a Childhood tem trabalhado em vários municípios com a implementação de planos municipais de enfrentamento à violência para estruturar melhor os serviços, com fluxos e protocolos. O problema é que, depois, não há orçamento para fazer a implementação. “Em vários municípios aprovamos projetos de lei, mas se você não tem o orçamento depois, não adianta nada”, lamenta.
Formações continuadas da rede de proteção também são outra lacuna importante. Pesquisa da Childhood em registros de cinco conselhos tutelares do Rio de Janeiro apontaram que os conselhos têm dificuldade de identificar casos de exploração sexual e notificá-los. “Percebemos que os conselheiros não sabem nem registrar esse tipo de violação. Misturam tudo”, afirma. A pesquisa foi feita um ano antes da Copa do Mundo, durante a Copa e um ano depois dela.
Continua após a publicidade
O Brasil é o quinto país no ranking de maior número de abusos sexuais pela internet. Fora das telas, quase 80% dos 84.388 casos de estupro registrados em 2025 no país foram de vulneráveis, adolescentes abaixo de 14 anos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.
Um cenário preocupante que demanda urgência. “O desafio é antevermos o problema”, diz a especialista da Childhood, que tem investido em materiais de letramento sobre esses temas. “Sabemos que precisamos de coisas mais estruturadas, como políticas educacionais, de atendimento e de assistência que foquem na prevenção”, reforça. Atuar só depois que a violência ocorre não é suficiente.
*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.