Há uma diferença entre aquilo que alguém pensa e aquilo que se sente confortável em dizer publicamente. Nas redes sociais, essa distância parece cada vez menor. Atrás de uma tela, opiniões ganham coragem e ofensas absurdas encontram plateia. Em pleno 2026, estamos assistindo a preconceitos antigos voltarem a circular com uma naturalidade preocupante.

A história mais recente e chocante na região começou em um post de um grupo de Facebook sobre uma iniciativa da APAE Santos.

A entidade anunciou para o dia 13 de novembro (quinta-feira) uma Festa Nordestina, pensada para celebrar a tão rica cultura daquela parte do país e arrecadar recursos para seus atendimentos. Os ingressos custavam R$ 20 e estava prevista, além de comidas típicas, música ao vivo. Mas a recepção de parte do público em um simples flyer publicado tomou um rumo perigoso. 

A situação surpreendeu a instituição, que tem 64 anos de atuação na cidade, e levanta um debate que vai além dos limites da rede social: quando foi que passamos a tratar o preconceito contra determinadas origens e pessoas como uma opinião digna de ser falada em voz alta?

A polarização chega ao impacto social

A proposta da Festa Nordestina nasceu de uma necessidade que a APAE Santos compartilha com milhares de entidades não apenas da Baixada Santista, mas Brasil afora: conseguir fechar as contas do mês e seguir ajudando quem precisa. Os eventos são a forma que muitas delas encontram para arrecadar recursos ao longo do ano. 

No caso da APAE Santos, são os atendimentos oferecidos às pessoas com deficiência.

Segundo a instituição, a escolha da temática veio da vontade de celebrar uma cultura marcada por tradições, gastronomia e manifestações populares.

O que não previam era a enxurrada de comentários xenofóbicos que vieram na publicação no Facebook, na esteira dos ânimos aguçados pelo segundo turno das eleições presidenciais. 

Em resposta ao Juicy Santos, a APAE afirmou ter recebido as manifestações com tristeza. A instituição também destacou que o combate ao preconceito faz parte de sua atuação diária.

“Quem conhece a APAE sabe que nossa luta diária é justamente contra o preconceito”. 

A entidade ainda explicou que não esperava esse tipo de reação diante de uma iniciativa criada justamente para promover solidariedade.

A APAE Santos não foi o único projeto social santista a sofrer esse tipo de represália pós-segundo turno em 2026.

O Natal na Quebrada, que distribui brinquedos no Natal para crianças em situação de vulnerabilidade, passou por situação similar em uma postagem no Instagram, assim como há outros casos espalhados por todo o país.

O preconceito regional não começa na internet

Essa é uma ferida muito mais profunda do que comentários de ódio na internet. O preconceito contra nordestinos acompanha a história brasileira e está relacionado a estereótipos sobre origem, condição econômica, cultura e características sociais.

Durante décadas, a população dos estados do Nordeste enfrentou discriminação associada à migração para outras regiões do país. Em muitos casos, essa visão inferiorizada aparece em piadas, comentários sobre sotaques e associações injustas entre origem e capacidade intelectual ou profissional.

A Baixada Santista conhece bem essa história.

A migração nordestina teve participação fundamental na formação da região, especialmente a partir da década de 1940. Trabalhadores chegaram em busca de oportunidades e ajudaram a construir a infraestrutura, a economia e a identidade de diversas cidades. 

Em Santos, essa presença continua nos bairros, nas famílias, nos pequenos negócios, na gastronomia e nas manifestações culturais.

Tratar essa população como se fosse estrangeira ou indesejada é ignorar uma parte da memória do nosso próprio território.

Quando a política entra na conversa

Outro aspecto que ajuda a entender a repercussão de manifestações como as recebidas pela APAE está na relação entre polarização política e preconceito regional.

Um estudo publicado em 2025 na revista acadêmica Argumentum, chamado “Polarização política nas eleições presidenciáveis (2018 e 2022): o Nordeste e os ‘outros’”, analisou publicações no Instagram e no X durante os dois períodos eleitorais.

A pesquisa identificou discursos que associavam a população nordestina a estereótipos de inferioridade e responsabilizavam a região por problemas socioeconômicos do país.

O trabalho mostra como disputas políticas podem ultrapassar o debate sobre candidatos e propostas. Em determinados contextos, a desqualificação passa a atingir a origem e a identidade de grupos inteiros.

Outro estudo, publicado na revista Latin American Perspectives, por Rodrigo Serrão, também investigou manifestações xenofóbicas contra nordestinos nas redes sociais após as eleições de 2014 e 2018. A análise identificou a repetição de estereótipos relacionados à cultura, à raça e à condição socioeconômica. Além disso, apontou a continuidade histórica dessas formas de discriminação – o que fica muito claro quando voltamos ao caso da APAE Santos. 

Posição política não determina comportamentos nocivos de pessoas. Só que discursos reproduzidos por figuras públicas têm um alcance enorme e podem colaborar com a legitimação de determinadas formas de tratamento. Esse tipo de deboche ou inferiorização alimenta preconceitos que já existem na sociedade.

Nas redes sociais, uma ofensa recebe curtidas, outra encontra apoio e, aos poucos, essas manifestações discriminatórias começam a ser defendidas pelo argumento vazio da “liberdade de expressão”. 

Mas precisamos enfatizar aqui a diferença entre discordar de uma ideia e atacar alguém por sua origem (ou raça, gênero, orientação sexual, classe, etc). 

A internet dita o que parece aceitável

A psicologia social oferece outra perspectiva para entender esse comportamento.

Em pesquisa publicada em 2023 na revista Group Processes & Intergroup Relations, os pesquisadores Gewei Chen e Jianning Dang investigaram como comentários desumanizantes na internet podem influenciar atitudes discriminatórias.

O trabalho reuniu três estudos. Os resultados identificaram uma associação entre normas de desumanização e discriminação contra estrangeiros. Nos experimentos, a exposição a esse tipo de discurso também aumentou o preconceito dos participantes.

Em outras palavras, o ambiente digital pode influenciar a maneira como as pessoas enxergam determinados grupos.

Quando alguém encontra repetidamente manifestações preconceituosas sem contestação, pode começar a perceber aquele comportamento como socialmente tolerado.

No Brasil, a discriminação regional também já ganhou instrumentos próprios de investigação científica.

Um artigo publicado em 2025 na revista Psico apresentou a Escala de Preconceito, desenvolvida por pesquisadores para identificar estereótipos relacionados à população da região.

O estudo analisou características como incompetência, inferioridade e sociabilidade atribuídas aos nordestinos. Os resultados demonstram que o preconceito regional pode ser investigado e mensurado cientificamente.

Essas pesquisas ajudam a entener o porquê de comentários aparentemente isolados merecerem tanta atenção. Afinal, quando o preconceito encontra espaço para circular livremente, seus efeitos impactam além da plataforma e vazam para o comportamento em sociedade. 

APAE Santos

Diante da repercussão, procuramos a entidade para entender como eles sentiram essa onda de ódio internamente. 

“Nosso posicionamento é de repúdio absoluto à xenofobia. Seria incoerente com nossa história silenciar diante de outras formas de discriminação. A APAE Santos não nasceu para levantar muros, mas para construir pontes”.

A APAE também destacou que sua trajetória de 64 anos está diretamente relacionada à luta pelo respeito e pela garantia de direitos das pessoas com deficiência. Sobre possíveis providências, a entidade informou que pretende avaliar as manifestações e as medidas cabíveis, sempre com responsabilidade.

A resposta também foi direcionada à comunidade nordestina que vive na região.

“Ao povo nordestino, queremos dizer que vocês são muito bem-vindos e merecem todo o nosso respeito.”

A festa nordestina da APAE Santos segue de pé com a ideia original da celebração, que é solidariedade e inclusão.

E nós, como cidadãs e cidadãos que queremos uma cidade justa e comprometida com a diversidade e a justiça social, não podemos nos calar na presença de comportamentos xenofóbicos e preconceituosos, seja na rede social ou na vida real.

Serviço – Festa Nordestina APAE Santos

Quando: 13 de novembro (quinta-feira), das 19h às 23h
Onde: Quadra da Escola — Rua Barão de Paranapiacaba, 91, Encruzilhada
Convite: R$ 20
Crianças até 7 anos não pagam.

Convites à venda na Secretaria da Escola. Informações: (13) 3233-5422

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