O texto publicado ontem mesmo aqui em INSIGHT envelheceu rápido — e mal. O primeiro dia útil após bombardeios no Irã parecia não fazer jus à aversão ao risco da qual tanto se falava, a ponto de bolsas nos Estados Unidos (e aqui no Brasil) fecharem com leve alta. Muitos vão dizer que o baque veio com delay. Mas para Robin Brooks, a mudança de humor não foi de noite para o dia e os muitos argumentos que minimizavam os efeitos do conflito se provaram errados. “Um analista, por exemplo, enfatizou o fato de que a alta de ontem do petróleo foi a 73º maior valorização desde 1988. Não estou certo de como essa é uma informação minimamente útil, mas deu a entender que o movimento não foi nada demais”, ironiza o pesquisador sênior da Brookings Institution, um dos centros de estudos econômicos mais tradicionais dos Estados Unidos, e ex-estrategista do Goldman Sachs.
Em um artigo publicado nesta terça-feira, 3, em seu Substack, o economista diz que o mercado tem a tendência de subestimar choques quando o inesperado acontece.
“Na minha opinião, há uma razão psicológica para isso: se você admite ter ficado surpreso, significa que você não previu o que estava para acontecer, o que, no mercado, quer dizer que você falhou“, escreveu Brooks.
Nas primeiras negociações após os bombardeios do fim de semana, o preço do petróleo deu um spike, uma arrancada de mais de 10%, apesar de ter fechado o dia com uma valorização um pouco mais modesta, mas ainda assim, relevante. “O spike de ontem do petróleo foi três vezes maior do que a alta em 24 de fevereiro, dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia. É um grande choque, sim, não importa o ponto de vista”, disse Brooks.
Ainda comparando os dois conflitos, o economista nota que a Rússia exporta 7 milhões de barris de petróleo por dia, enquanto 20 milhões passam diariamente pelo estreito de Ormuz. “O que está acontecendo agora tem uma escala muito maior do que em 2022”. E Brooks discorda que as reações foram tímidas. Pelo contrário, para ele, o mercado estava em modo “choque” desde ontem. O S&P 500 estável contrasta com a alta de 2% do índice quando a Ucrânia foi invadida. A principal diferença, nota Brooks, foi o comportamento do ouro, que subiu forte ontem, ao contrário de 2022, quando recuou.
“O debasament trade fez o ouro um ativo de refúgio mais proeminente”, diz Brooks. Já o real, que o economista vê como uma das moedas com mais potencial para navegar o conflito do Oriente Médio, caiu menos do que em 2022. “Foi uma queda de mais de 2% no dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia. Isso, na minha opinião, é um sinal de que os mercados estão flertando com o Brasil como um beneficiário da guerra no Oriente Médio”, arrisca o economista.
“Em 2022, após o risk off inicial, o mercado levou duas semanas para perceber que os preços das commodities são bons para o Brasil. Eu acredito que a ficha vai cair mais cedo desta vez”.
