São muitas as marcas chinesas que estrearam no Brasíl nos últimos tempos, mas a estratégia da Changan para o Brasil é completamente diferente daquela assumida pelas suas conterrâneas. Tão diferente que as vendas no Brasil começarão com carros nacionais e flex.
A estratégia distinta, porém, começa na forma como a operação foi estabelecida, porque a Changan não dispensou uma parceria com uma empresa local.
Chinesa e brasileira
Enquanto outras fabricantes chinesas estão estreando no Brasil como subsidiárias das suas matrizes, que financiam totalmente a operação, a Changan estabeleceu uma aliança com a Caoa.
Uma das exigências da empresa brasileira que também representa Chery e Subaru, e que foi responsável por construir a imagem da Hyundai no Brasil, foi que a nova operação se chamasse Caoa Changan. A fabricante chinesa topou.
Engenharia no Brasil
Nos últimos dois anos, o Brasil recebeu mais de 100 carros da Changan para testes de rodagem. O esforço envolveu mais de 200 engenheiros da Caoa e da Changan. Essa estreita relação técnica entre as duas empresas tem o objetivo de adaptar ao máximo os carros da nova marca para o mercado brasileiro, com melhorias em suspensão, direção, interface eletrônica e até em termos de acabamento.
O esforço de adaptação dos carros também se repetiu na China. O enorme campo de provas da Changan, nos arredores de Chongqing, tem uma pista que simula as agruras das vias brasileiras, com paralelepípedo desencontrado, calçamento de pedra, emendas de via, ondulações e até mesmo uma sequência de lombadas que eles consideram muito altas mas que, para um brasileiro, é apenas normal.

Carros flex desde o lançamento
Questionado, em entrevista, sobre como a Changan pretende concorrer com suas conterrâneas, o vice-presidente executivo da Changan, Peng Tao, deu um breve sorriso e detalhou que a fabricante tem 10 centros de pesquisa e desenvolvimento pelo mundo, mais de 24.000 funcionários envolvidos só nisso. Ele ainda emendou que a estreia da marca no Brasil com um carro flex, por si só, é um meio de diferenciação das outras fabricantes chinesas.

O carro em questão é o Changan Uni-T, que começa a ser vendido no final de março com motor 1.5 turbo flex com 180 cv e 30,6 kgfm. O SUV cupê com porte de Jeep Compass ficou 1 cv mais potente do que na China com a adaptação do seu motor para o etanol.
Carro chinês com motor flex nem é novidade no Brasil. O primeiro foi o esquecido Chery S-18, de 2012, cinco anos antes da Caoa assumir a operação da marca no Brasil. Depois, a JAC também investiu na tecnologia. Marcas chinesas com presença mais recente no Brasil, nomeadamente GWM, BYD e Omoda & Jaecoo dizem ter motores flex prontos, mas ainda não introduziram no mercado.
Produção nacional desde o início
Em vez de começar as vendas com carros importados, a parceria com a Caoa possibilitou que os Changan Uni-T façam sua estreia no Brasil já com montagem nacional. Isso é inédito entre as marcas chinesas, que ou iniciaram suas operações com importados antes de estabelecer fábrica ou apenas anunciaram a intenção de ter produção no Brasil, com previsão de investimento mas sem definir ou anunciar um local.

As linhas da fábrica da Caoa em Anápolis (GO), que até meses atrás montavam os velhos Hyundai Tucson e HR, foram adaptadas (também com a ajuda dos chineses) para a montagem dos Changan. Também desde o início, alguns componentes são nacionais e existe o esforço para que mais peças do carro tenham produção local no futuro.
Carros a combustão antes dos híbridos
Outra estratégia diferente da Caoa Changan está em não iniciar suas vendas no Brasil com um carro híbrido. Seu primeiro carro de volume é um SUV cupê a combustão, enquanto a divisão de luxo Avatr já tem 30 unidades do elétrico Avatr 11 vendidas. Isto, porém, foi pensado friamente.

De acordo com Peng Tao, transformar o motor 1.5 turbo em flex representa um grande investimento e, também, que a estratégia da Changan é de longo prazo. “Não é simples levar tecnologia PHEV ou EREV para o Brasil, e um motivo para isso é que nós respeitamos o mercado brasileiro e a demanda”, diz o vice-presidente.
“Tendo esse motor flex como base nós, na verdade, podemos rapidamente trazer nossos outros produtos para o Brasil”, completou o executivo remetendo ao contexto da adaptação dos carros da Changan ao gosto do brasileiro. Os primeiros híbridos serão lançados no Brasil ainda em 2026.
