Conheça o Olinia 1, o carro elétrico mexicano de R$ 45 mil



O México deu um passo simbólico em sua estratégia de eletrificação. Depois de apenas 18 meses de desenvolvimento (e quatro dias antes do previsto…), o governo do país apresentou oficialmente o Olinia 1, primeiro veículo elétrico concebido dentro de um programa nacional que reúne universidades, centros de pesquisa, empresas estatais, órgãos federais e investidores privados.

O lançamento aconteceu em Zumpango, a 55 quilômetros da Cidade do México, com a participação da presidente do país, Claudia Sheinbaum, que chegou ao evento dirigindo o primeiro protótipo.

Mais do que um carrinho elétrico, o Olinia é apresentado como um projeto de política industrial. A proposta é desenvolver qualificação técnica local em áreas estratégicas como baterias, software, inteligência artificial, design industrial e infraestrutura de recarga.

Subcompacto com seis lugares

O Olinia 1 não é exatamente um carro convencional — está mais para um tuk-tuk bem evoluído. Lembra também veículos como os atuais Citroën Ami e Fiat Topolino, vendidos na Europa como soluções de “micromobilidade elétrica” ou “mobilidade urbana elétrica”. É, contudo, maior e mais útil que esses pequeninos modelos da Stellantis, que levam apenas duas pessoas.

O modelo mexicano pode transportar até seis ocupantes sentados. São dois lugares na frente, dois fixos atrás e mais dois banquinhos escamoteáveis no meio da cabine.



Olinia - subcompacto com 6 lugares (1)

Olinia – subcompacto com 6 lugares 

Foto de: Reprodução

Tudo foi configurado para privilegiar a acessibilidade e a facilidade de embarque: a porta traseira é do tipo suicida e tem um enorme ângulo de abertura. O assoalho é baixo, plano, e há uma área destinada a uma cadeira de rodas, com pontos de fixação. As alças de apoio são grandes e estão por todos os lados. As dimensões exatas do veículo não foram anunciadas, mas os projetistas dizem que o Olinia é 15% mais curto que um compacto comum e, ao mesmo tempo, 15% mais amplo por dentro.

O pequeno utilitário é extremamente simples. De “luxo”, traz acionamento elétrico dos vidros das portas dianteiras (nas traseiras, eles são de correr), travas elétricas com controle remoto na chave, barras de teto para transporte de grandes cargas, iluminação reforçada da cabine e… não muito mais do que isso.  As rodas de aço de 14” não levam calotas.



Olinia - painel

Foto de: Reprodução

No acabamento interno, tudo é de plástico resistente. O motorista vai sentado em uma posição alta, cômoda, e há assistência elétrica na direção. A ideia é que o profissional não se canse ao passar longas horas trabalhando.

No lugar do vidro traseiro, há um compartimento que leva o estepe e o cabo de recarga — uma câmera de ré tenta atenuar a falta da vigia. O quadro de instrumentos é bem simples e o smartphone pode ser conectado e encaixado no painel para uso como som e GPS. Todos os botões são grandes, fáceis de enxergar e de usar (os da transmissão vão bem no meio do tablier).



Olinia - o estepe e o carregador

Olinia – o estepe e o carregador

Foto de: Reprodução

“Para nós, desenhar melhor nunca significou fazer algo mais complicado, e sim entender bem as necessidades reais dos nossos usuários e dar uma solução aos problemas que enfrentam no dia a dia”, explica Rafael Garayoa, diretor técnico do projeto.



Claudia Sheinbaum, a presidente do México chegou ao evento guiando o protótipo (1)

Claudia Sheinbaum, a presidente do México chegou ao evento guiando o protótipo 

Foto de: Reprodução

Cadê os airbags?

No México, o Olinia 1 já provoca bastante polêmica por não ser equipado com airbags, ESP ou qualquer tipo de ADAS. Será preciso criar uma legislação específica em que o veículo possa se enquadrar.

Vale dizer que o Nissan Tsuru de terceira geração (1992-2017), por longos anos campeão de vendas no país e favorito dos taxistas, foi retirado de linha justamente por não oferecer proteção adequada contra impactos nem trazer airbags ou ABS.



Olinia - transporte em curtas distâncias (1)

Olinia – transporte em curtas distâncias

Foto de: Reprodução

A estrutura é tubular. Apesar da silhueta de paralelepípedo, focada no aproveitamento de espaço, o Olinia 1 tem uma carinha amigável, especialmente pelos faróis redondos (full-LED) e pela grade dianteira que lembra uma boca aberta. A placa, quando for instalada, lembrará dois dentes incisivos…

Segundo os responsáveis pelo projeto, a identidade visual foi inspirada em um coelho. O símbolo da marca, aliás, é um coelhinho alado.



Olinia - recarga em tomada doméstica

Olinia – recarga em tomada doméstica

Foto de: Reprodução

Motor de 18 cv e autonomia de 125 km

A proposta do Olinia não é competir com automóveis convencionais. Seu objetivo é permitir deslocamentos urbanos curtos e a baixo custo, substituindo principalmente táxis e mototáxis (tuk-tuks).

O modesto motor elétrico de 18 cv leva o veículo a uma velocidade máxima limitada a 50 km/h. Segundo os projetistas, seu forte é a força em situações de trânsito e subidas. Falando em ladeira, o Olinia tem tração traseira. Pontos importantes como torque e peso do veículo não foram revelados na apresentação.



Olinia e seu motor traseiro

Olinia e seu motor traseiro

Foto de: Reprodução

A energia é fornecida por uma bateria de 14,7 kWh instalada sob o banco traseiro. Segundo os responsáveis pelo desenvolvimento, o conjunto permite uma autonomia em torno de 125 quilômetros.

Seu padrão de carregamento é o NACS (North American Charging System), o mesmo dos Tesla, mas o Olinia 1 também pode ser conectado diretamente a tomadas caseiras, dispensando equipamentos especiais. Nesse caso, a carga total se dá em 10 horas.



O Olinia entre um compacto normal e um tuk-tuk

O Olinia entre um compacto normal e um tuk-tuk

Foto de: Reprodução

Uma das preocupações foi certificar o sistema elétrico no padrão IP67, que garante proteção contra poeira e resistência à imersão. Esse padrão internacional indica o grau de blindagem dos componentes de alta tensão do veículo, como baterias, motor e inversores.

IP vem de Ingress Protection (proteção contra ingresso de partículas e líquidos). O dígito 6, no caso, representa o nível máximo nessa escala, significando que o sistema é totalmente vedado contra poeira. Já o 7 indica que o veículo pode permanecer submerso em até um metro de água por até 30 minutos, sem que ocorra infiltração capaz de provocar danos ou curto-circuito. A ideia é que o Olinia possa enfrentar alagamentos e resistir a inundações.



Olinia - a ideia é que o modelo seja usado como táxi (1)

Olinia – a ideia é que o modelo seja usado como táxi 

Foto de: Reprodução

Custo de uso, preço popular e produção nacional

Segundo os dados divulgados pela fabricante, o custo operacional fica em torno de 0,49 peso mexicano (R$ 0,15) por quilômetro rodado, aproximadamente um quinto do que gastaria um compacto movido a gasolina ou metade do custo de operação de uma moto.

Com isso, os idealizadores estimam uma economia anual superior a 50 mil pesos mexicanos (R$ 15 mil) em combustível para quem roda 75 quilômetros por dia.

A ideia é que, além de econômico, silencioso e útil no dia a dia, o modelo tenha preço popular. O Olinia 1 chegará ao mercado mexicano com valor inicial de aproximadamente 150 mil pesos mexicanos (R$ 45 mil, na conversão direta). As primeiras entregas estão previstas para junho de 2027.

Inicialmente, o índice de nacionalização será de 50%, e a meta é elevá-lo para 75% até 2030.



Claudia Sheinbaum, a presidente do México subiu ao palco guiando o protótipo

Claudia Sheinbaum, a presidente do México subiu ao palco guiando o protótipo

Foto de: Reprodução

Movimento em náuatle

Olinia significa “movimento” em náuatle, língua pré-colombiana ainda hoje falada por cerca de 1,7 milhão de pessoas em várias regiões do México. Desde o início, a proposta era criar um veículo desenvolvido por engenheiros mexicanos e produzido localmente.

Para isso, o projeto reuniu instituições como o Instituto Politécnico Nacional (IPN), o Tecnológico Nacional de México (TecNM), a Secretaria de Ciência, Humanidades, Tecnologia e Inovação, além de órgãos ligados aos setores de energia e meio ambiente.



Olinia - um carro desenhado no México, para mexicanos

Olinia – um carro desenhado no México, para mexicanos

Foto de: Reprodução

Também participaram a estatal de lítio LitioMX e a Comissão Federal de Eletricidade, responsável por parte da infraestrutura de recarga. Já estão em andamento estudos para instalar 2 mil pontos de recarga no país.

Um dos objetivos é criar uma cadeia tecnológica nacional capaz de desenvolver componentes, software e sistemas associados à mobilidade elétrica, embora apenas 15% a 20% da matriz energética mexicana hoje venha de fontes limpas e renováveis.

Apesar da motivação nacionalista, especialistas e empresas da China, dos Estados Unidos, da Índia e da Alemanha colaboraram no projeto e na fabricação dos componentes do protótipo, desenvolvidos do zero.

“É um veículo criado no México e para o México. Construir indústria nacional, porém, não significa isolar-se, mas aprender e integrar capacidades”, diz Roberto Capuano Tripp, coordenador do projeto.

Vale lembrar que o México já é um importante polo de produção de veículos elétricos para exportação. Modelos como o Chevrolet Equinox EV, o Ford Mustang Mach-E e o Chevrolet Blazer EV são fabricados no país.

A diferença é que essas são operações de fabricantes dos Estados Unidos, enquanto o Olinia representa uma tentativa de criar um veículo elétrico de desenvolvimento nacional, utilizando conhecimento local e uma cadeia produtiva própria.



Olinia - Depois da Copa serão mostradas as versões de carga

Olinia – Depois da Copa serão mostradas as versões de carga

Foto de: Reprodução

O modelo de negócios do Olinia prevê que o governo mexicano financie as etapas de pesquisa, engenharia e desenvolvimento do veículo. Trata-se de um empreendimento de capital misto, com fins lucrativos e relevante participação acionária do Estado. A produção em si ficará a cargo de um parceiro industrial privado com experiência no setor automotivo.

O plano é começar com algo entre 7 mil a 10 mil unidades no primeiro ano e aumentar gradualmente esse volume até atingir 50 mil veículos anuais em 2032. Se tudo correr conforme o previsto, essa expansão da capacidade fabril deverá contar com a entrada de investidores privados para aportar capital ao projeto.



Olinia - As versões de carga serão mostradas logo depois da Copa (2)

Olinia – As versões de carga serão mostradas logo depois da Copa 

Fotos de: Reprodução



Olinia - As versões de carga serão mostradas logo depois da Copa

O que você pensa sobre isso?


Os próximos passos incluem o lançamento de uma versão de carga, chamada Olinia Cargo, que deverá ser apresentada logo após o término da Copa do Mundo.

“Dos sete maiores produtores de carros do mundo no ano passado — China, Estados Unidos, Japão, Índia, Alemanha, Coreia do Sul e México — só nós não temos uma marca nacional própria. O que estamos fazendo não tem nada de absurdo. Na verdade, o absurdo é que isso não tenha acontecido antes”, analisa Capuano Tripp.



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