A Cosan e a Shell, acionistas controladores da Raízen, comprometeram-se em contribuir com capital para uma solução definitiva dos problemas financeiros da empresa, em momento em que há prioridade absoluta para reduzir uma dívida crescente, disse o CEO da Raízen, Nelson Gomes, nesta sexta-feira (13).
Em teleconferência para comentar os resultados trimestrais da Raízen, que registrou um prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões, a administração afirmou que a empresa não tem um problema operacional, e que a provisão de R$ 11 bilhões contabilizada no trimestre reflete seu desafio financeiro.
A dívida líquida cresceu 43,4%, alcançando R$ 55,3 bilhões, segundo balanço divulgado na noite de quinta-feira (12), enquanto a empresa registrou no período uma baixa contábil (impairment) de R$ 11,1 bilhões, sem efeito caixa, mas com impacto na linha final do balanço.
Segundo executivo, ainda que a Raízen tenha hoje uma “liquidez robusta”, do ponto de vista da estrutura de capital a empresa chega a “um ponto de inflexão”, no qual o aporte dos acionistas controladores se faz necessário.
“Claramente, toda a execução do nosso plano de transformação operacional de maneira isolada não é suficiente para mitigar o desequilíbrio que temos na estrutura de capital da companhia”, afirmou Gomes, referindo-se aos programas de venda de ativos, simplificação de operação e corte de custos.
“E obviamente resolver a estrutura de capital da companhia reduzindo o endividamento é absolutamente prioritário”, acrescentou ele.
Ele lembrou que a companhia contratou assessores financeiros e legais com o objetivo de avaliar alternativas que mantenham a viabilidade e a competitividade da companhia no longo prazo.
“Esse processo todo está sendo conduzido pela companhia em conjunto com os acionistas controladores, que se comprometeram em contribuir capital dentro de uma solução que seja consensual, estruturante e principalmente que seja definitiva para que a companhia possa operar no longo prazo”, ressaltou.
Ele pontuou que esse processo começou há alguns meses e “vai se prolongar por mais alguns meses adiante”, evitando dar detalhes em momento em que há especulações sobre o processo.
Apesar das dificuldades, a Raízen continua operando “no curso normal em cada um dos negócios”, completou.
“Reforçamos o compromisso de todas as operações, a manutenção com todos os parceiros de negócios, clientes, revendedores, fornecedores que são ainda mais essenciais neste momento.”
“Incerteza relevante”
Em seu balanço do trimestre, a Raízen alertou em nota que a atual situação financeira indica a “existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia”.
Acrescentou que a estrutura de capital da empresa permanece sob pressão devido ao atual nível de endividamento e encargos financeiros relacionados.
Esse ponto foi comentado pelo Scotiabank, que afirmou em análise que os resultados foram “totalmente ofuscados” pelo alerta, acrescentando que a tese de investimento da Raízen “mudou de uma história de recuperação operacional para uma oportunidade de reestruturação em dificuldades”.
O CFO da Raízen, Lorival Luz, destacou aos analistas que a companhia conta com mais de R$ 17 bilhões de caixa (base 31 de dezembro de 2025), com liquidez imediata.
“A gente parte de um caixa robusto e não temos nenhum vencimento muito relevante no curto prazo”, afirmou ele, ao responder perguntas de analistas, adicionando também que o apoio dos controladores também traz “conforto” para a companhia.
As agências S&P Global e Fitch reduziram drasticamente suas classificações de crédito da Raízen nesta semana, após a empresa nomear consultores jurídicos e financeiros.
Vendas de ativos
Ao longo de 12 meses, a companhia vendeu ativos em aproximadamente R$ 5 bilhões, o que colabora para a redução dos investimentos, disse o executivo.
O CEO disse que as vendas de ativos vão continuar, acrescentando que as negociações para a venda de unidade na Argentina deverão ser concluídas até o final deste ano.
No início desta semana, a Reuters noticiou que a Mercuria Energy Group, empresa suíça de energia e commodities, estava avançando nas negociações para comprar os ativos argentinos por mais de US$ 1 bilhão.
Tanto a Raízen quanto a Mercuria se recusaram a comentar o assunto.
A Raízen também avançou em ganhos de eficiência, informou a empresa. Em nove meses, a companhia contabilizou R$ 600 milhões, acima da previsão inicial de R$ 500 milhões, à medida que busca simplificar suas operações, focando em açúcar, etanol e na distribuição de combustíveis.
