A indústria da moda é um dos setores mais efervescentes da economia dos países europeus. Não à toa, chama-se indústria. Dentre desfiles exuberantes, tendências lançadas, estratégias inovadoras, ao longo de décadas o eixo norte do planeta vem apontando o que e como o mundo deve se vestir nas próximas temporadas – e isso tudo, claro, sem mencionarmos a fofocagem e tretas que rolam nos bastidores desse setor de profissionais tão seletos. Mas um pouco desse outro lado passa a ser conhecido agora pelo grande público a partir do longa de ficção ‘Couture’, que teve exibições prévias durante o Festival do Rio 2025 e chega ao circuito exibidor da França a partir dessa semana, mas ainda sem previsão de estreia no Brasil.
Na trama, as histórias de três mulheres se entrelaçam. Maxine Walker (Angelina Jolie, de ‘Lara Croft: Tomb Raider’ é uma diretora de cinema estadunidense contratada para realizar um filme durante a importante Semana de Moda de Paris. Ela sempre se viu dividida entre seu trabalho, no qual é mundialmente reconhecida, e sua vida particular, como esposa e mãe. O que ninguém sabe é que Maxine aceitara fazer esse trabalho para, em paralelo, investigar clinicamente um câncer detectado na sua mama. Ao mesmo tempo, acompanhamos a jornada de Ada (Anyier Anei, cujo primeiro e único trabalho nos cinemas é este), uma belíssima jovem imigrante recém-chegada à França, que acaba conquistando papel de destaque no desfile, mas tem que encarar o preconceito e a animosidade das outras modelos com quem divide uma casa em Paris. Ainda temos no cenário Angèle (Ella Rumpf, de ‘O Desafio de Marguerite’), maquiadora freelancer que tenta encaixar diversos jobs numa mesma diária, dando conta de tudo para poder se sustentar na capital francesa.
Indo para todos os lados mas sem explicitamente mostrar o objetivo de qualquer ponto de interseção entre as tramas, ‘Couture’ tem por intenção mostrar os bastidores de um dos eventos mais badalados do mundo da moda. Mas o que de fato chega ao espectador é uma entediante rotina de três personagens meio que centrais no show (uma modelo, uma diretora, uma maquiadora) que, pelo olhar do filme, são humanizadas no sentido “gente como a gente”: todas têm problemas pessoais, conflitos internos, têm boletos para pagar, se afastam e familiares e amigos em prol do trabalho, enfrentam desafios para atingir seus objetivos. Igual a todos nós.

É possível que a intenção do roteiro de Alice Winocour (de ‘A Jornada’, e que também dirige o longa) tenha sido a de mostrar a solitude da mulher contemporânea, que corre atrás dos seus sonhos e carrega um peso enorme nas costas. Talvez numa intenção metafórica do título (que, em francês, significa os pontos da costura) seja possível relacionar essa costura com a rotina dessas personagens, que retalham seus dias um após o outro. Porém, sem um objetivo para tanto pano de fundo, fica uma sensação de uma estrutura curtametragista para enfocar o enredo em personagens desinteressantes, cujos dramas pessoais não impactam o espectador.
Com um elenco que ainda conta com Louis Garrel (o queridinho do cinema francês), ‘Couture’ faz um retrato não emocionante de três mulheres que participam da engrenagem da moda parisiense. E, considerando o contexto em que o filme está inserido, faltou brilho.

