Estações elevatórias: as casinhas de Santos que guardam a história do saneamento


Pequenininha, sextavada, com esquadrias de madeira e azulejos branco e verde, ela não chama atenção à toa. A casinha da esquina da Avenida Conselheiro Nébias com a Campos Sales parece um gazebo perdido no meio da calçada. Mas ela carrega mais de 100 anos de história dentro dessas paredes.

Esse é um dos antigos abrigos das estações elevatórias de Santos, e a história deles começa com um nome: Saturnino de Brito.

Avenida Conselheiro Nébias com Campos Sales, 2026. Foto: Pamela Weydmann

O engenheiro que transformou Santos

No início do século XX, o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito foi contratado para resolver um problema sério: o saneamento de Santos. A cidade enfrentava surtos de febre amarela e precisava urgentemente de infraestrutura moderna. A solução de Brito foi um sistema integrado de canais que separava água da chuva e esgoto. Ele aproveitou a gravidade natural do terreno para escoar o esgoto pela cidade.

O projeto era sofisticado para a época e funcionava de forma simples na prática: os canos desciam pelo subterrâneo, conduzindo o esgoto pela força da gravidade. Mas chegava um ponto em que a tubulação ficava tão funda que não havia como manter manutenção adequada além daquela profundidade. O esgoto não conseguia mais avançar sozinho. Era aí que entravam as casinhas.

Pequenas, mas essenciais

Cada casinha abrigava uma estação elevatória com bombas que puxavam o esgoto lá do fundo, lançavam-no para uma cota mais alta e permitiam que o sistema continuasse funcionando pela gravidade. As unidades originais tinham capacidade de escoar até 80 litros de esgoto por segundo.

Por dentro, as paredes também eram revestidas de azulejos. Tampões no chão fechavam a entrada para o poço que recebia o esgoto. Uma talha presa ao teto puxava a bomba. O telhado de madeira em formato de exaustor tinha a função de liberar o odor provocado pelo esgoto. Esse era um detalhe técnico que, visto de longe, parece apenas estético.

Saturnino de Brito não se limitou à funcionalidade. As casinhas têm um projeto cuidadoso, com formato sextavado, azulejos na fachada e no interior, esquadrias de madeira trabalhada. Elas precisavam existir. No entanto, também precisavam pertencer à paisagem urbana.

No total, foram construídas quatro unidades na região: três em Santos, localizadas na Conselheiro Nébias, na Rua João Octávio no Paquetá e na Alameda Neiva da Mota e Silva no José Menino, e uma no Largo Thomé de Souza, Praia do Gonzaguinha, São Vicente.

Patrimônio tombado

Com o crescimento populacional acelerado, as estações originais foram sendo desativadas e substituídas por unidades maiores. Essas novas unidades eram capazes de escoar 220 litros por segundo. As casinhas, porém, ficaram, e foram ganhando outro valor ao longo do tempo: o de memória da cidade.

Nos anos 90, todas foram tombadas como patrimônio histórico. O tombamento veio complementar o tombamento dos próprios canais de Santos. As casinhas e os canais fazem parte do mesmo conjunto, da mesma obra, do mesmo Saturnino de Brito.

Como destacou à época o presidente do Condepasa, Bechara Abdalla Pestana Neves, “tão ou mais importante que a questão da arquitetura dos abrigos é que eles são remanescentes de um sistema de saneamento criado por Saturnino de Brito que revolucionou uma época.”

Hoje elas continuam espalhadas por Santos e São Vicente, discretas e charmosas, esperando que alguém pare e pergunte: o que é isso?

Agora você já sabe!

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