O conflito no Oriente Médio voltou ao noticiário após as forças armadas dos Estados Unidos e de Israel realizarem um ataque coordenado contra o Irã no sábado (28). A ação resultou na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei.
O presidente americano Donald Trump afirmou nesta segunda-feira (2) que a guerra pode durar de quatro a cinco semanas — ou até mais. Mas como uma disputa tão distante pode afetar o mercado automotivo brasileiro? E quais podem ser os impactos nos preços da gasolina e do diesel?
Na visão do economista Luiz Alberto Melchert, o Brasil começará a sentir os desdobramentos do conflito em questão de semanas — não de meses. O “x da questão”, segundo ele, é o Estreito de Ormuz, que foi fechado após a intensificação da guerra.
Pelo local passam cerca de 20% de todo o petróleo bruto do mundo e 10% do gás natural. Esse gás, inclusive, é usado para fluidificar petróleos mais pesados. Com a interrupção da rota, a expectativa é de que o preço do barril ultrapasse os US$ 100 até o fim da semana.
“Lembre-se de que o petróleo é o maior produto de exportação do Brasil e fica difícil justificar vendê-lo abaixo do preço de mercado. A mudança não será abrupta porque há contratos em curso para cumprir. O choque será sentido na medida em que eles tiverem de ser renovados. Isso, aliás, fará com que os preços continuem elevados mesmo depois de as hostilidades cessarem”, afirma Melchert.
O economista explica que o impacto ocorre porque as refinarias trabalham com misturas específicas de petróleo de diferentes origens para atingir o grau API (American Petroleum Institute) para o qual foram projetadas.
“O petróleo da Venezuela, por exemplo, tem API entre 8 e 10, sendo um dos mais pesados. Já o do Golfo Pérsico pode chegar a API entre 50 e 60, considerado muito leve. O petróleo nigeriano é ainda mais leve, quase como gasolina pura. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, todas as refinarias do mundo acabam sendo afetadas”, diz.
Preço da gasolina e do diesel
O conflito também pode pesar diretamente no bolso do consumidor. A tendência é de alta nos preços da gasolina e do diesel nas próximas semanas.
Na avaliação de Melchert, a Petrobras já não tem mais como segurar os preços como fazia no passado. Isso porque a companhia deixou de atuar em toda a cadeia de distribuição após vender refinarias e a BR Distribuidora.
“O maior problema é que a Petrobras deixou de ter uma política do poço ao posto. Com a venda de refinarias e da BR Distribuidora, ela não consegue mais controlar o preço na bomba como antes. Hoje, por exemplo, os derivados que saem da refinaria de Landulfo Alves (BA) são mais caros do que em outras regiões do país, o que acaba penalizando o Nordeste”, afirma.
Fabricantes
O especialista também avalia que o conflito deve atingir a cadeia produtiva automotiva, elevando custos para fabricantes de peças e veículos.
“Não resta dúvida de que haverá impacto. Os automóveis consomem cerca de 50 kg de plástico por tonelada bruta. Como a densidade do material é baixa, podemos dizer que aproximadamente 40% das peças dos carros modernos dependem de plásticos de alguma forma”, explica.

Como o plástico deriva do petróleo, a alta do barril tende a encarecer componentes usados na produção automotiva.
Dólar e consumo
Para Cassio Pagliarini, CMO e sócio da Bright Consulting, o mercado brasileiro de veículos reage principalmente a quatro fatores: preço dos carros, taxa de juros, distribuição de renda nas classes A, B e C e o índice de confiança do consumidor.
Segundo ele, no curto prazo, o indicador mais sensível ao conflito é justamente a confiança do consumidor.
“De todos esses fatores, o índice de confiança é o mais volátil e varia conforme o humor do mercado interno e externo. É possível que haja alguma desconfiança do brasileiro diante do cenário internacional, o que pode gerar receio e afetar decisões de consumo”, afirma.
Pagliarini também avalia que o aumento do preço dos combustíveis é praticamente inevitável e que pode haver alguma valorização do dólar, ainda que de forma moderada.
“Já imaginamos que o preço do combustível deve subir. Pode haver também uma valorização do dólar nesse contexto, mas de forma restrita, porque a moeda vinha caindo no Brasil. O conflito pode apenas interromper temporariamente essa queda”, diz.
Anfavea
Para Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o conflito intensificado no Oriente Médio pode afetar a logística para algumas empresas. No entanto, diz que ainda não há um impacto profundo previsto pela indústria nacional.
“Não há uma avaliação ainda sobre o quanto o conflito irá nos impactar. É muito recente. Eu não tenho relatos das nossas empresas de quebra da cadeia de fornecimento”.
