A capital inglesa que viu nascer movimentos estéticos que mudaram a forma como o mundo se veste agora receberá, pela primeira vez, um olhar genuinamente santista sobre inclusão. Caroline Gomes Costa, orgulhosamente filha da Camila Gomes e Thiago Costa e neta da Dona Rute, está prestes a levar moda inclusiva para a London Fashion Week. O impacto da moda inclusiva nesse evento pode abrir portas para outras marcas brasileiras.
Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
O convite veio da Bullock Inclusion, projeto britânico que garimpa pelo mundo criações que entendem moda como direito, não privilégio. E foi justamente essa urgência — a de vestir corpos historicamente esquecidos pelas passarelas — que fez a coleção “ARQUIVO” atravessar o Atlântico. Em um mercado que ainda trata acessibilidade como nicho ou campanha pontual, a designer santista mostra que inclusão não é tendência passageira: é projeto de futuro. O desenvolvimento da moda inclusiva exige novas soluções e criatividade.
A criança curiosa que virou estilista
Essa teimosia infantil se transformou em força motriz quando chegou o vestibular.
“Sempre fui uma criança muito curiosa e criativa, além de muito persistente, aquelas que quando coloca algo na cabeça, não tem quem mude. Não tem ninguém da minha família que tenha seguido algo ligado à arte”, explica Caroline.
Mas ela não se deixou abalar. Persistiu. E foi justamente nesse caminho aparentemente diferente que Caroline reencontrou a versão mais autêntica de si mesma.
“Eu reencontrei a Carol criança nessa área tão mágica que é a moda, onde posso me expressar livremente e vestir pessoas com as minhas criações”, relembra.
Portanto, o que parecia um desvio de rota era, na verdade, o destino mais coerente possível.
Quando o corpo dita a criação (e não o contrário)
A curadoria da Bullock Inclusion exigiu que Caroline repensasse cada detalhe técnico da coleção. Não basta ter intenção; é preciso domínio sobre modelagem, materiais e ergonomia.
“Para construir uma coleção inclusiva é preciso pensar nas limitações específicas de cada deficiência, incluindo a mobilidade reduzida ou a ausência dela, a dificuldade de se vestir e despir, dores crônicas, hipersensibilidade, dificuldades intelectuais”, enumera a designer.
Assim, ela mergulhou no universo da moda adaptativa: botões de pressão no lugar de caseados tradicionais, imãs embutidos que facilitam o vestir, velcro estratégico, costuras planas que evitam lesões em peles sensíveis.
“Os detalhes pensados em um design de viés inclusivo são os tipos de fechos utilizados, recortes diferentes dos convencionais para facilitar a vestibilidade, alterações em modelagens que geram conforto, tecidos aconchegantes, sem muitas texturas”, detalha Caroline.
No caso específico da adaptação que está desenvolvendo, o foco recai sobre pessoas com síndrome de Down e maior sensibilidade sensorial.
“Prezarei pelo conforto sem costuras internas, com cavas e decotes mais abertos e a redução do comprimento da gola”, explica.
Além disso, o trabalho envolve compreender que cada deficiência pede um vocabulário específico de design — e Caroline está aprendendo esse idioma, na prática, longe da romantização que o mercado costuma fazer.
Santos em cada dobra de tecido
“ARQUIVO” não é uma coleção qualquer. O nome já entrega: trata-se de um projeto que discute como “somos acúmulos da nossa própria existência e o quão a nossa trajetória influencia na construção da identidade metamorfose”. Caroline explica que “as nossas memórias, momentos, sentimentos, presenças e ausências moldam a ‘bagagem’ pessoal que carregamos conosco durante toda a vida”. Moda inclusiva busca valorizar essas experiências únicas.
“De maneira indireta, carrego Santos nessa coleção porque foi onde cresci, desenvolvi boa parte das minhas memórias, os sentimentos de histórias felizes e tristes que me moldaram, pessoas que passaram pela minha trajetória e lugares que frequentei”, revela a designer.
Contudo, a identidade local não aparece em estampas óbvias de praia ou referências turísticas. Ela está na construção emocional, no jeito de narrar histórias através do que se veste. Os looks têm peso visual proposital.
“Looks bem volumosos, que se assemelham a uma bagagem bem pesada e cheia de coisas, a ocultação da silhueta, a escolha por cores profundas e aplicação de texturas, ao mesmo tempo que geram estranheza também geram curiosidade”, descreve Caroline.
Autenticidade
Quando perguntada sobre o diferencial que a levou até Londres, Caroline é direta: “Foi a maneira com que transmiti o meu conceito para a parte estética”. Nada de firulas ou artifícios vazios. A força estava em criar temática tão sentimental em artes vestíveis, transformando conceito abstrato em roupa que provoca, incomoda e, principalmente, conecta.
Para jovens designers que buscam nichos sociais na moda, o conselho de Caroline é certeiro:
“Se aprofundar na própria criatividade e desenvolver criações que, mesmo sendo diferentes aos olhos da comunidade, gerem conexão com quem vê, carreguem histórias e tenham um conceito forte por trás. Fugir do óbvio, das tendências passageiras e do que outros designers já desenvolveram é o que o torna relevante e autêntico”.
Assim, fica claro que o mercado global está cada vez mais atento a quem tem algo genuíno a dizer — especialmente se essa voz vier de lugares e perspectivas ainda pouco ouvidas nas semanas de moda internacionais. Por isso, moda inclusiva representa não só inclusão, mas também inovação.
Inclusão na passarela
A London Fashion Week é um dos eventos mais prestigiados do calendário global. Desfilar lá já seria marco para qualquer designer. Desfilar lá com uma coleção inclusiva, vinda de Santos, muda o jogo. Para Caroline, o peso é enorme.
“São pessoas que foram esquecidas por muito tempo pelo mercado da moda, com dificuldades desde a inacessibilidade nas lojas físicas até peças que não os servem, não os acolhem e nem os incluem” comenta.
Ela pontua a inversão perversa que ainda domina o setor: Ou seja, contra o princípio principal do mercado de consumo, em que eles se adaptam ao mercado e não o mercado a eles”. Levar “ARQUIVO” para Londres é, portanto, um ato político.
Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Caroline acredita que refletir sobre um futuro da moda com diversidade, inovação e inclusividade mostra uma evolução no pensar da geração atual e das que virão em começar a entender a moda como ferramenta de representação, pertencimento e transformação social, e não apenas como estética ou consumo. Enquanto isso, Santos, mais uma vez, exporta talento que o mundo precisa conhecer.
E você, já parou para pensar quantas pessoas ao seu redor não encontram roupas que realmente as vistam?
