Alguns filmes conquistam a gente pela mensagem que deixam. ‘Deixe-me Viver’, dirigido por Walther Neto, é um deles. Com Mônica Carvalho e Cat Dantas, o drama aborda um assunto pouco explorado pelo cinema nacional e que provoca um desconforto difícil de ignorar: até onde podemos decidir como uma pessoa que amamos deve passar seus últimos dias?
A história acompanha Julia (Cat Dantas), uma adolescente diagnosticada com um câncer terminal. Diante do pouco tempo que lhe resta, ela pede à mãe, Andrea (Mônica Carvalho), que a tire do hospital. Quer conhecer outros lugares, se apaixonar e experimentar uma liberdade que a doença ameaça interromper antes mesmo que tenha a chance de descobri-la.
É um pedido que nenhuma mãe está preparada para ouvir. Andrea precisa lidar com o medo de perder a filha enquanto tenta compreender o que ela deseja. A resistência do pai, interpretado por Humberto Martins, leva o conflito à Justiça e amplia uma discussão que já seria dolorosa dentro de casa. Quem deve ter a última palavra quando o desejo de proteger alguém entra em choque com a vontade dessa pessoa?
O longa se aproxima do debate sobre a ortotanásia pelo caminho do afeto. Seu interesse está nas pessoas envolvidas, nas escolhas que precisam fazer e na dificuldade de aceitar uma decisão que parece antecipar uma despedida. A fé também atravessa essa jornada, assim como o amor de uma mãe que precisa aprender a escutar a filha em circunstâncias terríveis.
‘Deixe-me Viver’ tem o coração no lugar certo. A vontade de emocionar é evidente, e a história ganha força quando permite que Julia seja uma adolescente, com curiosidade, desejos e aquela pressa de experimentar tudo. Há algo especialmente triste em acompanhar essas descobertas sabendo que, para ela, o tempo tem outro peso.
Filmado em Trancoso, na Bahia, o longa encontra nas paisagens um cenário bonito para essa experiência. O lugar tem o encanto de um paraíso possível para Julia. A beleza ao redor torna compreensível sua vontade de estar ali, embora não elimine as dificuldades que surgem conforme a história avança. A doença continua fazendo parte da vida da garota, mesmo longe do hospital.
Cat Dantas é um dos grandes acertos do filme. Sua atuação tem uma naturalidade que aproxima o público de Julia e dá leveza a uma personagem cercada por um assunto tão pesado. A atriz convence como uma jovem em fase de descoberta, interessada em conhecer um mundo que ainda tem muito a lhe oferecer. É esse brilho que faz sua situação doer.

Mônica Carvalho, por sua vez, está excelente como Andrea. A preocupação da mãe sustenta o lado mais angustiante da história: como respeitar a vontade da filha quando tudo o que ela deseja é ter mais tempo ao seu lado? A relação entre as duas dá ao filme sua principal força emocional.
Daniela Albuquerque interpreta Nina, a enfermeira que se posiciona contra a decisão de Andrea e Julia. Sua presença acrescenta outra perspectiva ao conflito e lembra que a escolha das protagonistas encontra resistência também entre aqueles responsáveis pelos cuidados da adolescente.
Ao final, o que permanece é a dificuldade de separar amor e medo. ‘Deixe-me Viver’ emociona porque coloca uma mãe diante de um pedido quase impossível e uma filha diante de experiências que deveriam ser apenas o começo de sua história. Um drama sensível, que encontra em suas protagonistas motivos suficientes para envolver o público e deixar uma discussão incômoda depois da sessão.