Morro que serviu de refúgio contra piratas há 400 anos guarda milagre atribuído a santa, antigo cassino e ‘bondinho’ no litoral de SP


Quando os navios holandeses surgiram diante da costa de Santos, parte dos moradores deixou às pressas a vila e buscou abrigo no alto do morro. Segundo a tradição preservada há mais de quatro séculos, os corsários perceberam a fuga e começaram a subir a encosta. Antes que alcançassem o refúgio, o terreno cedeu, e uma massa de terra e pedras desabou sobre os perseguidores.

Reunida perto da capela, a população atribuiu a salvação a Nossa Senhora do Monte Serrat. Os registros históricos confirmam que a esquadra de Joris van Spilbergen chegou à região em 1615 e enfrentou resistência. A memória santista situa o episódio em 1614, embora os relatos sobreviventes da expedição não mencionem o deslizamento.

Mais de quatro séculos depois, a mesma subida já não é uma rota de fuga. Em cerca de quatro minutos, o funicular (também chamado de ‘bondinho’) vence a encosta e deixa os passageiros diante da capela da padroeira, dos salões do antigo cassino e de uma vista que se abre sobre a Baixada Santista.

Localizado no Centro de Santos, o Monte Serrat reúne no mesmo alto o santuário da padroeira da cidade, um antigo cassino e o funicular que ainda liga a base ao topo.

Veja fotos do morro atualmente:

A santa que atravessou o Atlântico

Mais de uma década antes da chegada dos holandeses, uma devoção europeia já havia alcançado o morro. A história da capela começa em 1599, quando o então governador-geral D. Francisco de Sousa ordenou a construção de um templo dedicado a Nossa Senhora de Montserrat.

A santa era venerada em um mosteiro nas montanhas da Catalunha, próximo a Barcelona. A devoção cruzou o Atlântico com os colonizadores e chegou a uma elevação que os moradores ainda conheciam como Morro de São Jerônimo.

Em 1604, o lugar passou a ser chamado de Monte Serrat. A capela ainda era recente quando os corsários apareceram diante da região. Anos depois, seria justamente ao redor dela que os santistas situariam uma de suas histórias mais antigas de proteção.

Desde 1652, o templo permanece sob os cuidados dos monges beneditinos, segundo o Turismo de Santos. A cidade mudou ao redor, o morro ganhou outros usos, mas a capela continuou ligada à devoção que lhe deu origem.

Navios vistos do morro

A tradição religiosa santista situa a invasão em 1614. Os registros preservados da viagem de Joris van Spilbergen, porém, colocam a esquadra holandesa diante de Santos em janeiro de 1615.

Eram seis navios em busca de água e mantimentos antes de seguir viagem. A parada deveria servir ao reabastecimento, mas encontrou resistência em terra. Moradores, indígenas e homens encarregados da defesa da costa reagiram à presença dos invasores.

Segundo a cronologia reunida pelo projeto Impressões Rebeldes, da Universidade Federal Fluminense, a frota chegou à região em 17 de janeiro de 1615. Os confrontos continuaram até o começo de fevereiro, quando os navios deixaram o litoral.

Uma gravura baseada no roteiro de Spilbergen, preservada pela Biblioteca Nacional, mostra os portos de Santos e São Vicente vistos pela expedição. É um registro do litoral observado por quem chegou pelo mar e encontrou resistência antes de seguir viagem.

Encosta do morro desabou

Foi durante esse confronto que, segundo a tradição santista, a história chegou ao alto do morro. Parte dos moradores teria abandonado a vila e corrido em direção à capela, acreditando que a elevação ofereceria proteção.

Os corsários perceberam a fuga e seguiram pela encosta. No meio da perseguição, terra e pedras se soltaram do morro e atingiram os homens que tentavam alcançar o topo.

Para quem aguardava perto da capela, aquilo não foi tratado como simples acaso. A população atribuiu a interrupção do ataque a Nossa Senhora do Monte Serrat, e o morro passou a ocupar um lugar ainda maior na devoção local.

Os relatos sobreviventes da expedição holandesa confirmam a presença da frota e a resistência encontrada na região, mas não descrevem a subida nem o deslizamento. O episódio pertence, portanto, à tradição religiosa de Santos, e não a uma passagem comprovada pelos documentos conhecidos.

Sem aparecer nos relatos holandeses, a história permaneceu na memória da cidade e continua sendo contada mais de quatro séculos depois.

Padroeira séculos depois

A ligação entre a santa e Santos atravessou mais de 300 anos antes de receber reconhecimento oficial. De acordo com a história divulgada pelo complexo Monte Serrat, Nossa Senhora recebeu o título de padroeira da cidade em 1954. O reconhecimento pontifício veio em 8 de setembro de 1955.

A data tornou-se feriado municipal. Todos os anos, fiéis chegam ao santuário pelo funicular ou enfrentam os 402 degraus da escadaria, acompanhados por 14 nichos que representam a Via Sacra.

A fé continuou levando pessoas ao alto. Mas, ao lado da capela, outro tipo de público começaria a descobrir o Monte Serrat. Vieram a música, as festas e as noites em que subir o morro também significava desaparecer por algumas horas dos olhos da cidade.

Bondinhos atrás de cortinas

No começo do século 20, chegar ao topo ainda exigia esforço físico. Em 1910, um grupo de imigrantes espanhóis começou a construir um sistema funicular que ligaria a base ao alto e mudaria a rotina do morro.

A Primeira Guerra Mundial interrompeu importações e atrasou a chegada dos equipamentos. Foram 17 anos de espera até que os primeiros passageiros embarcassem nos bondinhos, em junho de 1927.

Nas cabines, fiéis passaram a dividir espaço com artistas, empresários e frequentadores da noite santista. Quem preferia não ser reconhecido tinha uma ajuda extra: cortinas podiam fechar os carros durante o trajeto.

Em poucos minutos, o passageiro deixava as ruas da cidade e chegava aos salões no alto do morro. Para alguns, a cortina fazia parte da viagem.

Cassino nas alturas

Ao desembarcar, o visitante encontrava um cenário distante da simplicidade da subida. Mármore de Carrara cobria o piso, vitrais belgas filtravam a luz e tecidos franceses decoravam as janelas. Prataria e cristais europeus completavam os salões.

O funicular e o salão de festas foram inaugurados em 1927. A história oficial do complexo informa que o andar destinado aos jogos começou a funcionar como cassino em 1934, o que explica as duas datas associadas ao empreendimento.

Carmen Miranda, Francisco Alves, Sílvio Caldas e Isaurinha Garcia passaram por ali. Entre os frequentadores estavam banqueiros, políticos, representantes da elite cafeeira e estrangeiros recém-chegados em transatlânticos ao Porto de Santos.

Bondinho percorre os trilhos do funicular que vence a encosta do Monte Serrat e leva passageiros ao alto em poucos minutos (Foto: RenatoThadoo/Pixabay)

O serviço não atende apenas visitantes. Os carros também fazem parte da rotina da comunidade formada na encosta, onde vivem aproximadamente 3 mil pessoas, segundo levantamento divulgado pela Prefeitura de Santos em 2026.

No topo, a cerca de 147 metros, aparecem o Centro Histórico, a orla, o Porto de Santos e trechos de São Vicente, Cubatão e Guarujá. O antigo cassino recebe eventos, enquanto o complexo mantém cafeteria, feirinha de artesanato e visitas históricas.

Da área voltada para o porto, ainda é possível olhar na direção de onde chegaram os seis navios holandeses. Hoje, é justamente esse horizonte que muitos passageiros param para fotografar.

A mesma encosta

O funicular leva poucos minutos até o topo do Monte Serrat, mas percorre um caminho usado pelos santistas há mais de quatro séculos.

Segundo a tradição, os primeiros moradores chegaram ao alto em busca de proteção contra os corsários. Depois vieram os fiéis, os frequentadores do cassino, artistas, jogadores e turistas atraídos pela vista.

Santos cresceu ao redor do morro. A capela permaneceu, os salões ganharam novos usos e os bondinhos continuam vencendo a mesma encosta todos os dias.

Mudou o motivo da subida. O caminho, não. No mesmo alto onde moradores buscaram abrigo no século 17, visitantes desembarcam hoje diante de uma capela, de um antigo cassino e de uma vista que reúne, em poucos metros, mais de quatro séculos da história de Santos.

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