Por 19 anos, o cassino mais glamouroso de Santos escondeu artistas, reis e presidentes atrás de cortinas; o Monte Serrat guarda essa história até hoje


Quando o bondinho começava a subir, as cortinas se fechavam. Do lado de fora, ninguém podia ver quem estava dentro. Não importava se era um banqueiro de São Paulo, um barão do café ou até um presidente da República. Naquele trajeto de quatro minutos até o topo do Monte Serrat, a identidade ficava guardada, como um segredo que a cidade inteira respeitava. Lá em cima, atrás de portas de madeira e vitrais belgas, funcionava o cassino mais glamouroso de Santos, um lugar onde fortunas nasciam e morriam na mesma noite.

O Monte Serrat não escolheu o luxo por acaso. Com 147 metros de altura, é o ponto mais alto da cidade, com uma vista de 360 graus que alcança a Baixada Santista e o Porto de Santos. No topo, três tesouros convivem até hoje: o antigo cassino, o Santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira da cidade, e o funicular centenário que, desde 1927, leva visitantes e moradores pela encosta.

A espera de 17 anos

A história do complexo começa muito antes da primeira roleta girar. Em 1910, a prefeitura concedeu a Walace Cócrane Simonsen o direito de instalar e explorar o serviço de bondinhos no morro. A tentativa falhou. Em 1912, novo privilégio a Vicente Abramo e Adelino Raposo, que também não conseguiram levar o projeto adiante. A obra só deslanchou em 1923, quando a Sociedade Elevadores Monte Serrat assumiu os encargos.

O complexo foi idealizado por seis sócios imigrantes espanhóis, em homenagem ao Monserrat da Catalunha. Dois deles eram bisavôs da atual gerente do local, Carolina Vallejo Ozores. Mas a construção levou 17 anos para ser concluída, por um motivo que fugia ao controle dos sócios: a dificuldade de os navios chegarem com os materiais durante a Primeira Guerra Mundial. Todo o material veio da Europa por mar. O piso é de mármore de Carrara suíço, os vitrais são belgas, e havia cortinas e tapetes franceses, cristais europeus e vidros bisotados.

Em 1º de junho de 1927, o funicular entrou em funcionamento, com trajeto de 242 metros percorridos em quatro minutos, impulsionado por um motor de 100 cavalos e cabos de aço com resistência para 90 toneladas. O maquinário foi importado da Alemanha e funciona até hoje na centenária Casa de Máquinas. Três meses depois, em 3 de setembro de 1927, o cassino foi inaugurado.

O glamour secreto dos anos 20

A era de ouro começou de verdade em 1934, quando Getúlio Vargas liberou os jogos de azar no Brasil. Um empresário inglês, ao conhecer e se encantar com o empreendimento, resolveu arrendar o piso inferior do prédio de quatro andares para instalar um cassino. O jogo funcionou por 12 anos, até 1946, com o intuito de entreter grandes celebridades e pessoas públicas.

Na fase áurea, até 300 pessoas frequentavam o local diariamente. Os salões tinham 25 bailarinas contratadas, com um professor para ensaiar as coreografias, e a casa era conhecida no Brasil e no exterior como ponto de referência para todo visitante que chegasse a Santos. O espanhol Antônio Ribeiro Vasquez, que guardava na memória a beleza dos salões decorados com cortinas e tapetes franceses, lembrava com satisfação: “Era a coisa mais linda”.

Mas o detalhe que marcou a lenda do lugar era outro. Os visitantes não queriam ser vistos nas mesas de jogo. Quando chegavam ao bondinho, fechavam as cortinas laterais até chegarem ao topo. Depois das 22 horas, quando o cassino abria, bastava uma pessoa chegar para o funicular ser posto em movimento, de graça. E quem quisesse, que subisse a pé.

Quem passou por ali

O Monte Serrat recebeu a nata do poder e do talento da época. Entre os artistas que se apresentavam com frequência nos salões estavam Carmen Miranda, Francisco Alves, Sílvio Caldas e Isaurinha Garcia. As estrelas faziam temporadas de gala, e muitas festas memoráveis se realizavam ali.

Do lado do poder, o cassino atraía banqueiros vindos de São Paulo, barões do café, governadores, juízes e até presidentes da República. O ex-governador paulista Júlio Prestes e Dino Bueno eram frequentadores assíduos. Estrangeiros chegavam pelos suntuosos transatlânticos que atracavam no porto, e a fama da casa se espalhava pelo mundo. Era o lugar onde a elite se encontrava, longe dos olhares, protegida pelas cortinas do bondinho.

O fim abrupto

Toda era de ouro tem um fim, e a do Monte Serrat chegou em 1946. O Decreto-Lei n. 9.215, do presidente Eurico Gaspar Dutra, proibiu definitivamente os cassinos no Brasil. Segundo pesquisadores, a medida foi influenciada por sua esposa, Carmela Dutra, católica fervorosa que considerava as atividades dos cassinos atentatórias ao pudor da época.

A proibição quebrou empreendedores, artistas e funcionários de todo o país. Em Santos, o impacto foi sentido de perto. Durante um período, o cassino do Monte Serrat chegou a funcionar clandestinamente, e o morro era visto como ponto estratégico. Mas o jogo, como se sabia, não voltaria.

Há ainda um capítulo dramático nessa história. Em 9 de abril de 1947, o cabo do bondinho rompeu faltando 30 metros para o destino. Entre as 36 pessoas que estavam nos bondes, uma mulher morreu. O acidente marcou a memória da cidade e reforçou a aura de mistério que cercava o morro.

O legado que resiste

Após a proibição, o gigante santista foi assumido por um dos sócios fundadores, Manoel Vallejo, que tinha a esperança de que o Monte Serrat, mesmo sem o atrativo do cassino, ainda pudesse atrair visitantes curiosos por história e cultura. Ele cuidou do empreendimento até sua morte, aos 69 anos, em 1956. Os filhos Gines, Manuel e Cândido Vallejo assumiram a empresa, hoje Monte Serrat Cassino Elevadores Ltda.

A família conserva até hoje a arquitetura de época, a mobília original, as mesas e cadeiras, os pisos originais e dois curiosos espelhos do cassino. Reformado em 1998, o local é palco de eventos sociais e culturais, bailes dançantes e shows, e conta com o Café Cassino, onde há uma réplica do balcão original dos tempos do jogo.

O morro também segue vivo em outra dimensão. O Santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira de Santos, é motivo de peregrinação para centenas de fiéis, que todo 8 de setembro sobem os 402 degraus da escadaria em celebração à santa. E o funicular continua levando não só turistas, mas também a comunidade de cerca de 3 mil moradores que se formou na encosta.

No fim das contas, a história do cassino do Monte Serrat é a história de um segredo bem guardado. Por 19 anos, o lugar mais glamouroso de Santos escondeu artistas, reis e presidentes atrás de cortinas, movimentando fortunas e alimentando lendas. As roletas pararam, os salões silenciaram, mas a memória permanece.

Hoje, quem sobe o bondinho e fecha os olhos pode quase ouvir o som das fichas e o riso das bailarinas. As cortinas que escondiam os jogadores se foram, mas o mistério ficou. E a lição permanece: no alto do Monte Serrat, o glamour dos anos 20 ainda vive, esperando quem queira conhecer a história que a cidade guarda com orgulho. O cassino invisível de Santos, afinal, nunca deixou de fascinar.

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